Edital n.º 05/2026 — Andar de bicicleta faz bem?
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Edital n.º 05/2026 · · Crónicas

Andar de bicicleta faz bem?

O nosso cérebro é um órgão fascinante. Ele pode-nos fazer confiar profundamente numa pessoa com óbvias más intenções, ou convencer-nos de que é absolutamente seguro agarrar numa aeronave e voar. Mas é essa característica que nos permite sair das nossas zonas de conforto e lançarmo-nos à aventura, para algo novo e assim ir mais longe.

Tal como andar de bicicleta, podemos estar anos sem amar e, num instante, reacendemos a nossa capacidade de nos expormos ao risco de cair. Só se aprende a andar de bicicleta uma vez. Depois, para sempre, sabemos pedalar e andar de um lado para o outro e de vez em quando caímos.

Andar de bicicleta e amar é muito bom! Um é ótimo para passeios ao ar livre, o outro excelente numa esplanada ao sol. Basta ir tentando até conseguir pedalar e sermos capazes de nos dirigir até onde queremos chegar, pondo de lado a quantidade de cálculos que o cérebro necessita para conduzir esta máquina e todos os perigos a que estamos sujeitos. Se ganhamos medo não voltamos a ter a coragem para aproveitar as aventuras e fazer grandes viagens. Mas nem tudo é perfeito.

Os problemas de andar demasiado com uma bicicleta aparecem quando ela não está ajustada. Muitos quilómetros de uma bicicleta que não foi feita para nós pode causar dormência genital, disfunção erétil e impotência. No final dos meus anos de casamento também me aconteceu algo semelhante. Bem que eu tentei ajustar o selim, mas a minha capacidade de realizar sexo com ela de uma forma saudável não se deu, provavelmente porque por passar tanto tempo desconfortável com a relação já não sentia quase nada.

Em certa altura, decidi discutir a ideia de que a nossa falta de empatia poderia requerer trocar a bicicleta por uma nova. Como resposta foi-me sugerido que eu necessitava de uns ajustes, ou de apertar alguns parafusos. Mas, como a relação já estava numa descida nunca consegui parar de pedalar e lá fui ladeira abaixo.

Para as mulheres esta questão é antiga. Dizia-se que o estímulo causado pelo selim punha em risco a sua pureza. A ciência tratou de desmentir o mito, e o álibi desapareceu. Mas nem elas nem eles escapam à realidade da máquina mal ajustada: da dormência à redução do prazer, da dificuldade em atingir o orgasmo à falta de ereção, a bicicleta errada estraga o passeio de ambos os lados.

Mas nem tudo está perdido: aumentar a altura do guiador e escolher um bom selim resolve a situação. E pedalar regularmente melhora o sistema respiratório, portanto, em vez de terminar o sexo ofegante como quem correu uma maratona, é possível usar a boca para outras coisas.

Resumindo, há sempre alguns contratempos ao decidir andar de bicicleta, e quase todos estão relacionados com a escolha da bicicleta certa. A bicicleta deverá ter a altura certa e ser adequada à nossa idade. No amor, encontrei muitas semelhanças com a bicicleta, e a que mais me custou a entender foi amar alguém cuja altura não estava ajustada ao momento e à maturidade que eu vivia.

Há que também manter o hábito de fazer revisões e manutenções preventivas. A bicicleta deverá estar sempre afinada e pronta para nos acompanhar nas nossas deslocações, seja de trabalho ou de lazer. Não se pode usufruir plenamente de um passeio de bicicleta se não conseguirmos chegar bem aos pedais, assim como no amor temos de medir se a areia não é demasiada para a nossa camioneta, se é veloz demais para nós ou se não está preparada para a levarmos para o campo e sermos mais radicais.

Também não é boa ideia esperar que a corrente fique sem óleo ou que os travões falhem numa descida. Convém não deixar chegar ao ponto em que os parafusos comecem a ganhar folga e a pensar por si. É preciso olear algumas conversas, pôr travões nas discussões, e analisar com frequência se está tudo alinhado. Às vezes, um simples "está tudo bem? Queres ir passear?" elimina aquele barulho que andava a ranger há semanas. Quando ignoramos os rangidos, mais cedo ou mais tarde acabamos com uma roda furada.

Mas a analogia mais interessante é mesmo a parte das acrobacias e a confiança que temos de ter para as fazer. Ao partilhar o amor com outra pessoa, temos que, tal como na bicicleta, confiar plenamente e sentir-nos seguros antes de tirar as mãos do guiador.

Amar, tal como dançar, escrever ou tocar um instrumento, é essencial para a nossa saúde física e mental. Quando amamos, o corpo liberta hormonas que nos deixam mais felizes, mais confiantes e mais resilientes. É tão importante como comer: quando temos fome, comemos. Se não comermos como deve ser, andamos todo o dia maldispostos.

Podemos não saber o paradeiro dela. Pode estar encostada, cheia de ferrugem, num qualquer lugar. Pode ter sido emprestada a outro que nunca a devolveu. Mas o corpo, que durante anos não sentiu quase nada, lembra-se do momento exato em que tirou os pés do chão pela primeira vez.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
9 de Agosto de 2026

Comentários

  • Francisco

    Boa analogia.

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