Edital n.º 14/2026 — Amor, A Prova Oral, segunda chamada
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Edital n.º 14/2026 · · Desadultando · capítulo 6 de 6

Amor, A Prova Oral, segunda chamada

Era o dia 13 de abril e nas salas ao lado as aulas decorriam normalmente. A Dona Elvira chegou à sala 4 às oito e meia e, como sempre, abriu a janela e sentou-se.

Era também o dia da prova oral de Amor. A segunda chamada para alunos do terceiro ano.

A sala cheirava a leite escolar do dia anterior e a banana esmagada, deixada no fundo de uma mochila.

No quadro, meio apagado da aula anterior, ainda se lia o sumário:

Lição n.º 42. Pessoa, Neruda e Bocage: três formas de escrever o amor. O caso Camões.

Era da turma do 9ºano. A Dona Elvira não o apagou. Pôs a pasta em cima da secretária e tirou a grelha. Pousou o telemóvel com o ecrã virado para baixo junto à pasta.

A grelha vinha num documento traduzido. Percebia-se logo, porque no canto superior ainda se lia, em cinzento: Emotional Literacy Assessment: Adapted Version. A Dona Elvira nunca tinha questionado porque é que uma das perguntas excluía a comida das respostas.

A Dona Elvira bebeu um gole de chá frio. Reparou que a planta da janela tinha duas folhas vivas e oito mortas. Não sabia se estava a morrer ou a recuperar.

O auxiliar bateu à porta.

— Dona Elvira, estão aqui os dois.

— Mande-os entrar.

— Os dois?

— Não. Um. Depois o outro.

Entrou primeiro o Dinis.

Tinha oito anos e os atacadores desapertados. Não por desleixo, mas porque ainda não tinha aprendido que se apertam antes de sair de casa.

Sentou-se. Pôs as mãos nos joelhos e os olhos na professora.

— Dinis, isto é a segunda chamada. Já sabes como funciona.

— Já.

— Vou fazer-te quatro perguntas.

— Está bem.

A Dona Elvira olhou para a grelha.

— Define amor sem usar exemplos alimentares.

O Dinis pensou.

— O amor é quando uma pessoa empresta a borracha a outra pessoa.

— Já tinhas dito isso no escrito.

— Mas é.

— Então, define-o sem usar material escolar.

O Dinis ficou parado. Abriu a boca. Olhou para as mãos nos joelhos. Fechou a boca.

— O amor é quando há lugares marcados.

— Onde?

— No autocarro. Quando uma pessoa guarda lugar para outra, mesmo se o autocarro está cheio. Isso é amor.

A Dona Elvira escreveu na grelha. Não pôs certo. Escreveu a resposta. Pôs reticências. Continuou.

— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.

O Dinis pensou.

— Estar presente é fácil.

— Como assim?

— É só aparecer. Os gatos aparecem sempre.

— E ser responsável?

— Os gatos não são responsáveis por nada.

A Dona Elvira escreveu na grelha.

— Mais alguma coisa, Dinis?

— Eu acho que também é quando uma pessoa não se pode esquecer da outra.

— Esquecer?

— Tipo se uma pessoa se esquece do almoço da outra, isso não é ser responsável.

— Está bem.

— Eu uma vez fiquei sem almoço.

A Dona Elvira anotou.

Por baixo, escreveu uma palavra que rasurou logo a seguir.

— Dá um exemplo de perda afetiva.

— O quê?

— Alguma vez perdeste uma pessoa de quem gostavas?

— Como assim, perder?

— Alguém que se foi embora. Não a voltaste a ver.

— Foi para onde?

— Para qualquer lado.

— A minha avó foi para o Brasil.

— Está bem. E o que sentiste?

— Senti pena de ter ficado sem o cobertor.

— Que cobertor?

— Ela tinha um cobertor que cheirava bem. Quando foi para o Brasil levou o cobertor.

— E a tua avó?

— Ficou lá.

A Dona Elvira escreveu. Não comentou.

— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.

— Eu não sei o que é cuidado adequado.

— São coisas que uma pessoa faz por outra para mostrar que se preocupa.

— A minha mãe lava-me as cuecas.

— Isso é uma resposta válida.

— A sério?

— Sim.

— Pensei que ia chumbar outra vez.

— Ainda não acabaste, Dinis.

— Pensei que tinha acabado.

— Falta saíres.

O Dinis levantou-se com os atacadores desapertados. À porta, virou-se.

— Posso ir lavar as mãos?

— Podes.

A Dona Elvira ficou sozinha. Olhou para a grelha. Tinha riscos azuis em todos os critérios. Ainda não tinha feito a soma. Somar era só no fim.

Por cima do lavatório ainda lá estava o recorte do jornal do ano anterior.

ESTRATÉGIA EUROPEIA PARA AS COMPETÊNCIAS AFECTIVAS ESSENCIAIS

Por baixo do título, numa foto, o ministro sorria. Ao lado, em letra mais miúda, estava a citação que tinha dado o nome a três ações de formação:

"As crianças devem ser capazes de distinguir afeto, apego, compromisso e responsabilidade partilhada em contextos relacionais."

*

O auxiliar bateu à porta e entrou.

— A Mafalda?

— A Mafalda.

A Mafalda entrou de cabeça baixa. Tinha o cabelo apanhado e um laço azul que não combinava com a camisola. Trazia a lancheira na mão.

Sentou-se. Colocou a lancheira no chão, ao lado dos pés.

Os pés não chegavam à barra da cadeira.

— Mafalda. Isto é a segunda chamada.

— Sim, professora.

— Define amor sem usar exemplos alimentares.

— O amor é quando uma pessoa gosta da casa.

— Da casa? Qual casa?

— Da casa onde devia morar.

A Dona Elvira escreveu a resposta. Pôs reticências no fim, embora não fosse preciso.

— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.

A Mafalda pensou.

— A minha mãe faz as duas coisas.

— E o teu pai?

— O pai aparece.

— Quando?

— Aos fins-de-semana.

— E é responsável?

— Diz que vai ser, quando puder.

— Porquê?

— Não sei.

A Mafalda baloiçou os pés. A Dona Elvira pôs a caneta em cima da grelha. Durante uns segundos, não escreveu nada. Depois levantou a caneta outra vez.

— Dá um exemplo de perda afetiva.

— Quando o meu pai vai para o trabalho.

— Mas ele vai e volta.

— Volta. Mas é como se voltasse uma pessoa parecida com ele.

— Mafalda, isso não é perda afetiva.

— Está bem.

— Tenta outra coisa.

— Não me lembro de mais ninguém.

A Dona Elvira olhou para a Mafalda e a Mafalda olhou para os pés.

— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.

— A minha avó tira as passas do arroz antes de eu chegar.

— Mais?

— A minha mãe sabe sempre onde está a caixa dos cereais.

— Mais?

— O meu pai não sabe.

— Isso não é um sinal de cuidado adequado, Mafalda.

— Pois.

— É o contrário.

— Eu sei.

— Então porque é que disseste?

A Mafalda pensou.

— Porque eu só sabia duas.

A Dona Elvira escreveu.

— Está bem. Podes ir.

A Mafalda levantou-se. Pegou na lancheira do chão. Foi até à porta. Hesitou.

— Professora.

— Sim?

— Isto conta para passar?

— Conta.

— Eu passo?

A Dona Elvira olhou para a grelha. Bebeu o resto do chá frio. Pegou na caneta vermelha.

— Passas.

— Os dois?

— Os dois.

— Está bem.

A Mafalda saiu. A porta fez o ruído que as portas das salas fazem, mas não se fechou bem e ficou um centímetro aberta.

A Dona Elvira não se levantou para a fechar.

Olhou para a grelha. Os critérios estavam todos com riscos azuis. Por baixo do último, “Identifica sinais de cuidado adequado”, tinha escrito “passas” e nada mais. Não tinha somado.

Pegou na caneta verde. Escreveu APROVADO nas duas folhas.

O auxiliar bateu à porta.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
30 de Setembro de 2026

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