
Amor, A Prova Oral, segunda chamada
Era o dia 13 de abril e nas salas ao lado as aulas decorriam normalmente. A Dona Elvira chegou à sala 4 às oito e meia e, como sempre, abriu a janela e sentou-se.
Era também o dia da prova oral de Amor. A segunda chamada para alunos do terceiro ano.
A sala cheirava a leite escolar do dia anterior e a banana esmagada, deixada no fundo de uma mochila.
No quadro, meio apagado da aula anterior, ainda se lia o sumário:
Lição n.º 42. Pessoa, Neruda e Bocage: três formas de escrever o amor. O caso Camões.
Era da turma do 9ºano. A Dona Elvira não o apagou. Pôs a pasta em cima da secretária e tirou a grelha. Pousou o telemóvel com o ecrã virado para baixo junto à pasta.
A grelha vinha num documento traduzido. Percebia-se logo, porque no canto superior ainda se lia, em cinzento: Emotional Literacy Assessment: Adapted Version. A Dona Elvira nunca tinha questionado porque é que uma das perguntas excluía a comida das respostas.
A Dona Elvira bebeu um gole de chá frio. Reparou que a planta da janela tinha duas folhas vivas e oito mortas. Não sabia se estava a morrer ou a recuperar.
O auxiliar bateu à porta.
— Dona Elvira, estão aqui os dois.
— Mande-os entrar.
— Os dois?
— Não. Um. Depois o outro.
Entrou primeiro o Dinis.
Tinha oito anos e os atacadores desapertados. Não por desleixo, mas porque ainda não tinha aprendido que se apertam antes de sair de casa.
Sentou-se. Pôs as mãos nos joelhos e os olhos na professora.
— Dinis, isto é a segunda chamada. Já sabes como funciona.
— Já.
— Vou fazer-te quatro perguntas.
— Está bem.
A Dona Elvira olhou para a grelha.
— Define amor sem usar exemplos alimentares.
O Dinis pensou.
— O amor é quando uma pessoa empresta a borracha a outra pessoa.
— Já tinhas dito isso no escrito.
— Mas é.
— Então, define-o sem usar material escolar.
O Dinis ficou parado. Abriu a boca. Olhou para as mãos nos joelhos. Fechou a boca.
— O amor é quando há lugares marcados.
— Onde?
— No autocarro. Quando uma pessoa guarda lugar para outra, mesmo se o autocarro está cheio. Isso é amor.
A Dona Elvira escreveu na grelha. Não pôs certo. Escreveu a resposta. Pôs reticências. Continuou.
— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.
O Dinis pensou.
— Estar presente é fácil.
— Como assim?
— É só aparecer. Os gatos aparecem sempre.
— E ser responsável?
— Os gatos não são responsáveis por nada.
A Dona Elvira escreveu na grelha.
— Mais alguma coisa, Dinis?
— Eu acho que também é quando uma pessoa não se pode esquecer da outra.
— Esquecer?
— Tipo se uma pessoa se esquece do almoço da outra, isso não é ser responsável.
— Está bem.
— Eu uma vez fiquei sem almoço.
A Dona Elvira anotou.
Por baixo, escreveu uma palavra que rasurou logo a seguir.
— Dá um exemplo de perda afetiva.
— O quê?
— Alguma vez perdeste uma pessoa de quem gostavas?
— Como assim, perder?
— Alguém que se foi embora. Não a voltaste a ver.
— Foi para onde?
— Para qualquer lado.
— A minha avó foi para o Brasil.
— Está bem. E o que sentiste?
— Senti pena de ter ficado sem o cobertor.
— Que cobertor?
— Ela tinha um cobertor que cheirava bem. Quando foi para o Brasil levou o cobertor.
— E a tua avó?
— Ficou lá.
A Dona Elvira escreveu. Não comentou.
— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.
— Eu não sei o que é cuidado adequado.
— São coisas que uma pessoa faz por outra para mostrar que se preocupa.
— A minha mãe lava-me as cuecas.
— Isso é uma resposta válida.
— A sério?
— Sim.
— Pensei que ia chumbar outra vez.
— Ainda não acabaste, Dinis.
— Pensei que tinha acabado.
— Falta saíres.
O Dinis levantou-se com os atacadores desapertados. À porta, virou-se.
— Posso ir lavar as mãos?
— Podes.
A Dona Elvira ficou sozinha. Olhou para a grelha. Tinha riscos azuis em todos os critérios. Ainda não tinha feito a soma. Somar era só no fim.
Por cima do lavatório ainda lá estava o recorte do jornal do ano anterior.
ESTRATÉGIA EUROPEIA PARA AS COMPETÊNCIAS AFECTIVAS ESSENCIAIS
Por baixo do título, numa foto, o ministro sorria. Ao lado, em letra mais miúda, estava a citação que tinha dado o nome a três ações de formação:
"As crianças devem ser capazes de distinguir afeto, apego, compromisso e responsabilidade partilhada em contextos relacionais."
*
O auxiliar bateu à porta e entrou.
— A Mafalda?
— A Mafalda.
A Mafalda entrou de cabeça baixa. Tinha o cabelo apanhado e um laço azul que não combinava com a camisola. Trazia a lancheira na mão.
Sentou-se. Colocou a lancheira no chão, ao lado dos pés.
Os pés não chegavam à barra da cadeira.
— Mafalda. Isto é a segunda chamada.
— Sim, professora.
— Define amor sem usar exemplos alimentares.
— O amor é quando uma pessoa gosta da casa.
— Da casa? Qual casa?
— Da casa onde devia morar.
A Dona Elvira escreveu a resposta. Pôs reticências no fim, embora não fosse preciso.
— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.
A Mafalda pensou.
— A minha mãe faz as duas coisas.
— E o teu pai?
— O pai aparece.
— Quando?
— Aos fins-de-semana.
— E é responsável?
— Diz que vai ser, quando puder.
— Porquê?
— Não sei.
A Mafalda baloiçou os pés. A Dona Elvira pôs a caneta em cima da grelha. Durante uns segundos, não escreveu nada. Depois levantou a caneta outra vez.
— Dá um exemplo de perda afetiva.
— Quando o meu pai vai para o trabalho.
— Mas ele vai e volta.
— Volta. Mas é como se voltasse uma pessoa parecida com ele.
— Mafalda, isso não é perda afetiva.
— Está bem.
— Tenta outra coisa.
— Não me lembro de mais ninguém.
A Dona Elvira olhou para a Mafalda e a Mafalda olhou para os pés.
— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.
— A minha avó tira as passas do arroz antes de eu chegar.
— Mais?
— A minha mãe sabe sempre onde está a caixa dos cereais.
— Mais?
— O meu pai não sabe.
— Isso não é um sinal de cuidado adequado, Mafalda.
— Pois.
— É o contrário.
— Eu sei.
— Então porque é que disseste?
A Mafalda pensou.
— Porque eu só sabia duas.
A Dona Elvira escreveu.
— Está bem. Podes ir.
A Mafalda levantou-se. Pegou na lancheira do chão. Foi até à porta. Hesitou.
— Professora.
— Sim?
— Isto conta para passar?
— Conta.
— Eu passo?
A Dona Elvira olhou para a grelha. Bebeu o resto do chá frio. Pegou na caneta vermelha.
— Passas.
— Os dois?
— Os dois.
— Está bem.
A Mafalda saiu. A porta fez o ruído que as portas das salas fazem, mas não se fechou bem e ficou um centímetro aberta.
A Dona Elvira não se levantou para a fechar.
Olhou para a grelha. Os critérios estavam todos com riscos azuis. Por baixo do último, “Identifica sinais de cuidado adequado”, tinha escrito “passas” e nada mais. Não tinha somado.
Pegou na caneta verde. Escreveu APROVADO nas duas folhas.
O auxiliar bateu à porta.
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