Edital n.º 13/2026 — Trinta Créditos
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Edital n.º 13/2026 · · Desadultando · capítulo 5 de 6

Trinta Créditos

Foi junto à pastelaria Nova Europa, à porta da casa de apostas, que o Agente Carlos Antunes intercetou o primeiro pensamento sujeito a direitos. Não era um pensamento extraordinário, mas era o suficiente para o aparelho apitar.

Também não foi sorte. O Euromilhões ia em 127 milhões. Era lógico alguém sonhar com o que fazer com o prémio. Tem de ser fácil sonhar com o Euromilhões, senão ninguém jogava. A oportunidade vinha depois, porque pensar no dinheiro era legítimo, desde que acautelada a eventual existência de titularidade e registo sobre o sonho. Em semana de jackpot, à porta da casa de apostas, os pensamentos sujeitos a taxas eram tiro certo.

Os sonhos de homens ricos tinham sido vendidos em lotes a meia dúzia de homens muito ricos. O Antunes nunca sabia qual era o dono de cada sonho, mas tinha um jogo privado: adivinhar o titular antes de olhar.

O homem saiu com o boletim na mão, parou no passeio e olhou para os números. Foi aí que o aparelho apitou.

O Antunes apostou no Neymar.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Projeção nupcial

Registo associado: CASAMENTO BELLA & EDWARD

Referência: IN-04.771-B

Titular dos direitos:

Logan Paul Ventures LLC

Utilização detetada: 00m41s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 28,5 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

Era propriedade do Logan Paul. O Antunes nem sabia quem era o Logan Paul. Falhou mais uma vez.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Está a pensar, não é?

— Eu?

— Sim.

— Acho que … suponho que sim.

O Antunes aproximou o aparelho do peito do homem. Não precisava, mas no curso tinham-lhe ensinado assim.

— Estava a pensar no quê?

O homem encolheu os ombros, e sorriu com o boletim na mão.

— Se ganhar, caso-me. Peço a Sandra e faço-lhe um casamento a sério. No meio de uma floresta, tudo coberto de flores brancas, uma luz suave. É o sonho dela.

— Pois.

O Antunes mostrou-lhe o ecrã.

O homem leu duas vezes, como se à segunda pudesse fazer sentido.

— Quem é a Bella?

— Não sei.

— O casamento é dela?

— É do Logan Paul.

— Quem é o Logan Paul?

— O titular dos direitos sobre esse sonho.

O homem olhou outra vez para o ecrã.

— Mas era o meu casamento. Foi a Sandra que o imaginou, há meses.

— Com flores brancas na floresta?

— Sim.

— Luz suave?

— Sim.

— Então não era dela. Já estava imaginado e registado.

— Isto não faz sentido nenhum.

— Artigo 14.º.

— Artigo 14.º de quê?

— Dos direitos. Vá, você sabe!

O homem pagou vinte e oito créditos e meio. Trinta era se pagasse depois de sexta. Guardou o boletim na carteira, com o recibo agarrado.

— E agora? Em que é que posso pensar?

— Que ganha.

— Só?

— Que ganha pode pensar à vontade.

O homem foi-se embora a olhar para o boletim. O aparelho apitou outra vez.

O Antunes virou-se.

O homem fechou os olhos.

— Eu sei. Eu sei.

*

O Antunes não era má pessoa. Isto é importante porque ele também não era particularmente uma boa pessoa. Era um homem com as capacidades certas, e ele próprio reconhecia os seus limites. Sabia que provavelmente todos os outros eram mais capazes do que ele.

Mas os outros não tinham ido ao concurso da Câmara. Ele foi. E, portanto, a responsabilidade era dele, não dos outros. Podiam ser mais capazes à vontade, mas a legitimidade era dele. Às vezes até tinha pena deles.

Era amigo do presidente da Câmara. Amigo no sentido em que o presidente lhe dizia "então, Antunes" quando se cruzavam no corredor. Também no sentido em que o Antunes o defendia à noite nas redes sociais, contra desconhecidos, com a sua característica pontuação irregular. Tinha a bandeira do partido no perfil e tudo o que o presidente fazia, o Antunes assumia como seu: as rotundas, o pavilhão multiusos e, obviamente a fiscalização cognitiva. Quando alguém se queixava das taxas, o Antunes sentia que se queixavam dele. E, ao menos nisso, tinha razão.

Tinha sempre o manual no carro. Seiscentas e quarenta e duas páginas, capa azul e de letra pequena. Tinham-lho entregue no primeiro dia do Curso Intensivo Nacional de Fiscalização Cognitiva Aplicada, junto com uma caneta, duas águas e uma sandes de queijo. Não o leu, mas na segunda noite fotografou as páginas todas e pediu à inteligência artificial do telemóvel que o resumisse. A inteligência artificial devolveu-lhe onze pontos. O Antunes guardou os três que lhe pareceram sérios: o artigo 14.º, o artigo 22.º e o artigo 31.º, o suficiente, até ver.

Quando alguém lhe pedia explicações ou argumentava que a taxa não era devida, o Antunes não discutia. Citava um dos três artigos. As pessoas aceitavam melhor um número do que um argumento. Ele sabia-o sem nunca ter pensado nisso, porque era assim que o Antunes sabia as coisas importantes.

É claro que o Antunes tinha a noção de que, por vezes, se excedia e ultrapassava largamente o que se esperava dele. A Câmara pedia doze autos por semana. Ele fazia vinte e tal. Mas para ele era brio. Conhecia os sítios onde as pessoas costumam pensar. Paragens de autocarro, filas dos correios e casas de apostas em semana de jackpot. Andava à caça, mas à caça no cumprimento do dever, que é a forma mais descansada de andar à caça.

O sistema de Fiscalização Cognitiva não tinha escandalizado ninguém. Quando o Antunes foi tomar o seu café junto à farmácia, na pausa das dez e meia, reparou na mulher que à porta se lamentava por não ter os créditos necessários para o antidepressivo do marido. O farmacêutico encolhia os ombros e apresentava o produto substituto patrocinado pelo estado. A máquina apitou quando passou junto à mulher. Ele desprezou o aviso e não parou. Já estava habituado. Toda a gente estava.

Quando a fiscalização dos pensamentos passou para as câmaras municipais, houve quem dissesse que não ia resultar. Tinham dito o mesmo dos parquímetros e do estacionamento. Primeiro foram os medicamentos, depois as músicas que não se podiam cantarolar, depois os livros. Agora eram os pensamentos. A lógica era sempre a mesma: se alguém teve a ideia primeiro, tu pagas para a usar. Um dia entendeu-se que a maior parte das pessoas apenas copiava as ideias dos outros e o resto foi legislação.

*

Às dez, entrou no Jardim Municipal.

As crianças viram-no antes de ele as ver. Uma largou a bola e outras esconderam-se atrás do escorrega. Uma menina de tranças meteu-se para trás de um banco e ficou com os pés de fora.

O parque ficou subitamente vazio, exceto pelos adultos, que continuaram sentados como se nada fosse.

Não era preciso fugirem. Até aos doze anos o pensamento era livre, por decreto, e também porque ninguém tinha ainda conseguido medir ao certo o que pensa uma criança. Mas as crianças fugiam na mesma porque era o que se fazia quando aparecia um fiscal. Principalmente o Antunes.

Carlos suspirou.

— Eu estou a ver-vos.

Silêncio.

— Até aos doze podem pensar o que quiserem. Está no decreto.

Uma voz atrás do escorrega:

— Mesmo coisas más?

Carlos pensou. O aparelho não apitou; pensar sobre legislação em serviço estava isento.

— Sim! Podem pensar em coisas más, mas não devem.

— E coisas parvas?

— Para o serviço é igual.

— E roubar?

Uma mãe virou-se no banco.

— Gustavo.

— Estou só a perguntar.

— Pensar pode — disse Carlos. — Fazer já é com a polícia.

As crianças pareceram satisfeitas com a separação de competências e foram saindo dos esconderijos.

A menina das tranças aproximou-se e leu alto o nome bordado na farda: — Agente Carlos Antunes!

— O senhor prende os pensamentos?

— Não.

— Então faz o quê?

— Eu só faço a cobrança quando é devida.

A menina recuou. Aquilo pareceu-lhe pior.

Quando se afastava, viu-as reunidas ao pé do escorrega. Tinham inventado um jogo: uma fazia de fiscal, com uma folha seca presa à camisola como distintivo.

— Apanhei-te! Estavas a pensar em gelados!

— Pensar em gelados é grátis!

— Mas estavas a pensar em gelados do ano passado!

A criança acusada ficou quieta.

— Não estava.

— Estavas com saudades do verão!

As outras fizeram um som coletivo. Saudades do verão têm taxa.

A criança fugiu. O fiscal correu atrás dela com a folha presa ao peito.

Carlos seguiu caminho. Achou bem. Sempre gostou de ver as crianças a brincar a coisas úteis.

*

Às onze e vinte e quatro, apanhou o homem do filme.

Estava num banco, sozinho, com um saco de viagem aos pés e um jornal dobrado em cima do joelho. Óculos de massa, um casaco castanho demasiado quente para o tempo.

O aparelho vibrou. Depois apitou.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Interpretação individualista de narrativa audiovisual — Classe B

Registo associado: OBRA AUDIOVISUAL REGISTADA

Referência: IA-08.314-B

Titular dos direitos:

Narrativa Universal Licensing PLC

Utilização detetada: 04m11s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 32 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

— Bom dia. Estava a pensar num filme?

O homem fechou o jornal.

— Estava.

— Qual?

— Isso é relevante?

O Antunes olhou para o aparelho.

— Para mim, não.

— Então não digo.

— Tudo bem.

O Antunes começou a escrever e o homem sorriu ligeiramente.

— Se não interessa qual é o filme, não vejo porque interessa o que pensei.

— Para mim apenas a categoria interessa.

— Interpretação individualista. Classe B?

Voltou a olhar para o agente.

— Quer dizer que pensei no filme sozinho?

— O facto de se admitir a existência de terceiros potencialmente concordantes não afasta os direitos do titular quando, no momento da ocorrência, o indivíduo se encontra sozinho.

Era uma das frases do curso. Saiu-lhe inteira, sem esforço. Das duas semanas de formação, a cabeça do Antunes tinha decidido guardar aquela. E usava-a sempre que possível.

O homem olhou para ele durante alguns segundos.

— Trinta créditos?

— Trinta e dois.

— Subiu?

— Em julho.

O Antunes olhou para o histórico.

— O senhor já tem algumas ocorrências.

O homem pagou sem discutir.

— Tenho tido tempo para pensar bastante.

— Isso nota-se. — Guardou o bloco. — Um conselho. Se for pensar em filmes, pense acompanhado com uma ou duas pessoas. Sozinho entra noutra categoria e é o que custa dinheiro.

O homem sorriu.

— Vou tentar não pensar sozinho.

— Faz bem.

O homem guardou o recibo dentro do jornal.

— Bom trabalho, agente Antunes.

— Conhece-me?

O homem apontou para a farda.

— Está aí escrito.

O Antunes continuou a ronda. Não tinha andado cinquenta metros quando o rádio apitou.

— Atenção a todas as unidades municipais da zona central. Possível presença de indivíduo sinalizado pela Polícia Internacional de Proteção Cognitiva. Indivíduo masculino, cinquenta e oito anos, cabelo grisalho, óculos, casaco castanho. Identificado como Henrique Valbom. Suspeito de tráfico transfronteiriço de estruturas filosóficas protegidas, reprodução ilícita e distribuição de conteúdos conceptuais sem licença.

O Antunes olhou para trás. O banco já estava vazio.

— Unidades que tenham tido contacto devem informar imediatamente.

Carregou no botão.

— Antunes, Unidade Municipal. Estive com ele agora.

— Como?

— Apliquei a taxa por interpretação de filme registado em OBRA AUDIOVISUAL REGISTADA .

Silêncio.

— E deixou-o seguir?

O Antunes olhou para o recibo.

— Pagou.

— Agente, esse homem é procurado em sete países. Trafica pensamentos filosóficos. Há mais de quinze anos que distribui estruturas protegidas. Há redes em Madrid, Bruxelas, São Paulo. Encontraram grupos inteiros a pensar Nozick sem licença em caves de prédios.

O Carlos não sabia quem era Nozick. Não achou necessário perguntar.

— Devia tê-lo retido.

— Não tenho competência.

— É um criminoso internacional.

— Mesmo assim.

Do outro lado, alguém respirou de forma irritada.

— Agente Antunes, quando encontrar um indivíduo procurado internacionalmente, deve impedir a saída.

— Isso é um artigo? Qual?

Silêncio.

— Não é um artigo municipal.

Carlos relaxou. Não era nada a ver com ele. Desligou.

À tarde soube que o apanharam na estação. Trazia no saco três cadernos, dois telemóveis desligados e vinte e sete folhetos de pensamentos filosóficos prontos a distribuir. Um deles estava identificado apenas como:

MERCADO RESOLVE — versão integral, sem rastreio

O assunto abriu as notícias das oito.

Carlos não viu, porque mantinha a televisão desligada à hora de jantar.

*

Seria bonito contar que o Antunes ficou a pensar no homem do casaco castanho. Que nessa noite, deitado, olhou para o teto e se perguntou o que seria isso de andar pelo mundo a distribuir pensamentos, quanto valeria um pensamento e a quem se pagava.

Mas especular sobre criminosos internacionais pertencia à categoria Reconstituição Dramática Não Autorizada, classe C, titular registado, e o Antunes não gastava créditos com pessoas que já iam presas. Teve uma noite tranquila, sem percalços.

No dia seguinte, às nove e dezassete, o aparelho apitou à porta da casa de apostas.

Era o homem do boletim. Boletim novo, olhos no papel.

O jackpot não tinha saído a ninguém e ia agora em cento e trinta e nove milhões.

Neymar, apostou o Antunes.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Fantasia náutica de enriquecimento — Classe II

Registo associado: 4-8-15-16-23-42

Referência: FN-02.886-II

Titular dos direitos:

Neymar Júnior Enterprises

Utilização detetada: 00m28s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 28,5 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

Era do Neymar. O Antunes acertou pela primeira vez sem celebrar.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Outra vez?

— Ontem não saiu a ninguém. E hoje tive cuidado. Pensei só num barco.

O Antunes mostrou-lhe o ecrã.

— Este é do Neymar.

O homem leu.

— E estes números?

— É o Registo associado.

— Associado a quê?

O Antunes olhou para o ecrã.

— Fantasia náutica de enriquecimento. Classe II.

— Mas eu só pensei num barco. E porque é que o titular é o Neymar?

— É o que consta.

O homem ficou a olhar para ele.

O Antunes tirou o bloco.

— Artigo 22.º.

— Ontem foi o 14.º.

— Hoje é o 22.º.

— Porquê?

— Ocorrência subsequente.

— E pago mais?

— Não. Vinte e oito e meio.

— Então o que é que muda?

— O artigo.

O homem desistiu e calou-se.

— Trinta se pagar depois de sexta — lembrou Antunes.

Passou o ticket, guardou o bloco e seguiu a ronda.

O homem tinha aprendido que fugir à ideia de casamento não lhe tinha servido de nada.

O Antunes não aprendeu nada porque não era para isso que lhe pagavam.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
16 de Setembro de 2026

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