
Amo-te, Carla! Saudades!
Aos cinquenta e três anos, José Manuel comprou uma irmã.
A empresa chamava-se qualquer coisa em inglês. Ele depois nunca se conseguiu lembrar exatamente do nome, apenas que o domínio era qualquercoisa.aq. Eram muito simpáticos, e lamentavam que ele tivesse chegado até eles. Os nossos sentimentos. Estamos aqui para ajudar.
O catálogo dividia-se em separadores, com subopções e pequenos parágrafos explicativos. Quase invejou a generosidade profissional com que lamentavam sem saber porquê, sempre respeitando a dor do cliente. José Manuel passou uma tarde a ler. Estava à mesa da cozinha, com um café ao lado, com a mesma concentração com que outros homens da idade dele leem páginas de carros usados.
Escolheu irmã, porque era a relação que faltava na família dele e que, portanto, ninguém poderia desmentir. Escolheu mais velha. Escolheu acidente em estrangeiro, porque a empresa avisava, num pequeno aviso lateral, que o luto por morte súbita longe de casa era estatisticamente o mais bem recebido socialmente.
Para o estado da relação, hesitou entre quatro opções. Conflituosa-sem-resolução era a mais cara, e vinha com uma legenda discreta. Recomendada para utilizadores que valorizem a complexidade emocional.
José Manuel escolheu essa. Achou que lhe ficava bem.
Depois veio a parte do pacote.
Ao princípio tinha pensado encomendar uma irmã já morta. Ficava mais barato, ficava mais simples, e ele estava com pressa de ter sentimentos. Mas a empresa, com aquela cortesia das empresas que sabem o que é melhor para nós, sugeriu-lhe que considerasse a opção integrada. Recebia primeiro a irmã viva, durante um período à escolha, com cartas, fotografias, eventualmente áudios e contacto regular. Só depois é que vinha a notícia da morte. O luto resultante é estatisticamente mais profundo, por motivos óbvios.
Havia quatro durações disponíveis. Um mês, dois meses, quatro meses, sete meses. A empresa recomendava sete, para maximizar a integração emocional. José Manuel escolheu quatro, porque sete pareciam-lhe muitos e ele queria avançar com a vida. Mais tarde havia de se arrepender.
Para os extras, hesitou outra vez. O pacote básico tinha cartas e fotografias. O intermédio acrescentava áudios mensais, mensagens de aniversário, e até três atualizações de vida significativas. Novo namorado. Mudança de cidade. Pequenas zangas. Reconciliações. O completo incluía chamadas em direto e a possibilidade de visitas anuais por vídeo, com cenários credíveis ao fundo. José Manuel escolheu o intermédio. O completo ficava caro e ele achou exagero. Mais tarde havia de se arrepender.
Recusou também o serviço opcional de cemitério, oferecido em letra mais pequena. A empresa propunha-se adotar uma campa anónima em qualquer cemitério à escolha do cliente, com manutenção mensal, flores de época e uma placa discreta. Ficava caro e ele achou exagero. Mais tarde havia de se arrepender.
O nome pôs ele. Pôs Carla António, sem pensar muito, talvez por causa de uma colega que tinha tido nos anos noventa e de quem se lembrava com aquela ternura desfocada que se tem por pessoas com quem nunca se fez nada. A empresa registou. Sugeriu-lhe ainda uma profissão, e ele aceitou a primeira que lhe ofereceram. Professora primária em Faro. Soou-lhe bem.
* * *
A Carla escreveu-lhe pela primeira vez ao fim de quatro dias.
A carta vinha em papel pautado, com a tal letra inclinada, e tratava-o por Zé-zinho. Falava-lhe da escola, de uma colega impossível chamada Lurdes, e perguntava-lhe pelos pais com aquele desinteresse afetuoso das irmãs que telefonam pouco. José Manuel leu a carta seis vezes. À sexta sabia-a de cor.
Respondeu, à mão, num papel comprado de propósito numa papelaria de Campo de Ourique. A empresa tinha avisado que as respostas não eram lidas pela Carla, mas que podiam ser scaneadas e inseridas no sistema, para enriquecer o realismo das comunicações futuras. Ele scaneou. Pagou um euro e meio.
Na segunda semana veio um áudio. A voz da Carla a contar um episódio parvo que tinha acontecido na sala dos professores, com risadas curtas no meio. Tinha a respiração levemente arquejada de quem fala enquanto faz outra coisa. Ouviu-o no carro, parado no parque de estacionamento do ministério, antes de subir para o gabinete. Ficou sentado mais cinco minutos do que devia.
Na quarta semana, a Carla mandou uma fotografia. Estava à porta de uma esplanada com um homem de barba que ele não conhecia. Na semana seguinte, contou-lhe por carta que tinha um namorado novo, Pedro, e que talvez fosse coisa séria. Não digas nada à mãe, ainda não está a altura. José Manuel não tinha tencionado dizer à mãe. Mas o pedido, em si, fê-lo sentir-se cúmplice de uma coisa, e a cumplicidade era um sentimento que não tinha desde miúdo.
Na sétima semana, a Carla mandou os parabéns em cassete. Veio pelo correio, num envelope com selo internacional, dos rápidos, porque ele tinha pago o suplemento de suporte físico sem saber bem porquê. Cantou mal, com risadas ao fundo de outras pessoas. A gravação tinha o chiado certo. Ele comprou um leitor de propósito, passou-a depois para o telemóvel para não gastar a fita, e ouviu-a cinco vezes seguidas, na sala às escuras. Sentiu-a.
Na décima, chegou um postal de Sevilha, datado de uma terça-feira de julho. Está calor de mais. Compro-te uma coisa antes de voltar. A letra estava ligeiramente mais apressada que de costume.
Na décima primeira, a empresa enviou-lhe um email com o assunto Comunicação Importante. José Manuel sentou-se à mesa da cozinha para ler. Lamentavam profundamente informá-lo do falecimento da sua irmã, Carla António, vítima de acidente rodoviário ocorrido na A-92, sentido Sevilha-Granada. As autoridades locais tinham sido contactadas. O processo de luto podia agora iniciar-se formalmente. Estavam à disposição para qualquer apoio adicional.
Ele leu o email três vezes. Depois foi à gaveta buscar o postal. Compro-te uma coisa antes de voltar. A Carla não chegou a comprar a coisa. Foi o detalhe que primeiro o fez chorar, e ele chorou na cozinha, em pé, com o postal na mão e o café a arrefecer.
A irmã inventada conhecia-o melhor do que uma irmã real teria conhecido. Tinha sido feita à medida do que ele precisava de ter perdido.
* * *
A empresa tinha sugerido, ao princípio, que ele não falasse muito sobre a Carla com terceiros durante a fase de integração. Ele cumpriu durante quatro meses. Ao quinto, não aguentou mais.
Disse à colega de gabinete, a Anabela, que tinha sido um aniversário difícil. Ela perguntou porquê. Ele disse, com a naturalidade que já tinha treinado em casa, que era o aniversário da morte da irmã. Não sabia que tinhas uma irmã. É que ela morreu cedo, em Espanha, e a gente em casa nunca falou muito disso. A Anabela ficou calada um momento, com aquele respeito instantâneo que as pessoas têm pelos lutos que não conheciam, e na sexta-feira seguinte trouxe-lhe um bolo de iogurte com uma vela.
A vela foi o que mais lhe doeu. Não tinha pedido vela.
A partir daí a coisa propagou-se como se propagam estas coisas em ministérios pequenos. O chefe de divisão, no Natal, chamou-o de lado e disse-lhe que se ele algum dia quisesse falar, estava ali. Agora que estás sozinho com isso. A vizinha do quinto, que sempre o tinha cumprimentado com aquela secura das vizinhas que não decidiram ainda se gostam, passou a perguntar-lhe pela saúde com uma ternura nova, demorada. Numa festa de anos, alguém comentou o José perdeu cedo a irmã, sabes, e duas mulheres que ele não conhecia olharam para ele com uma compaixão profissional que não sabiam estar a oferecer.
Em fevereiro, o chefe chamou-o outra vez. Sentou-o na cadeira à frente da secretária com aquela solenidade dos chefes que estão a oferecer coisas. Disse-lhe que tinha pensado nele para a coordenação do gabinete de planeamento. Era um cargo intermédio, com pequeno aumento. Tu tens um peso humano que se nota. Isso conta. José Manuel agradeceu. Aceitou. Ao sair, ficou a pensar no peso humano, que era uma coisa que nunca soubera ter, e que aparentemente se tinha apanhado em Sevilha.
Ele percebeu, com uma calma que o assustou, que tinha ganhado uma biografia.
Sempre tinha sabido que lhe faltava uma. Tinha cinquenta e três anos, era filho único, os pais ainda eram vivos e bem, nunca casara, nunca enterrara ninguém que lhe tivesse feito falta de modo audível. Em jantares, quando alguém perguntava e tu, perdeste alguém este ano?, ele tinha sempre de responder que não, e a conversa virava-se para o lado. Era assim há trinta anos.
Agora não.
Agora tinha Sevilha. Tinha uma cassete que ouvia uma vez por mês. Tinha um postal por cima da secretária. Tinha o direito a fazer aquela pausa pequena e cansada que os enlutados de longa data fazem quando o assunto deles aparece sem aviso. As pessoas reconheciam a pausa. Davam-lhe o tempo dela.
Não estava a mentir, propriamente. A dor era real. Aparecia-lhe à noite, sem pedir, e tinha a forma exata da Carla. Magra, escura, irritada com qualquer coisa que ele nunca soube. Uma vez sonhou com ela. Acordou com a almofada molhada. Ficou sentado na beira da cama, a pensar em Sevilha, e percebeu que não conseguia separar duas coisas. Que a Carla nunca tinha existido. E que ele lhe tinha saudades.
* * *
A empresa fechou num domingo de fevereiro do ano seguinte. As fotografias, guardadas na nuvem da empresa, deram erro. As cartas digitalizadas eram ficheiros que já não abriam. A aplicação tinha desaparecido do telemóvel. Restou-lhe o postal, em cima da secretária, e a cassete, que continuou a tocar porque era uma máquina antiga e ninguém a podia desligar à distância.
Procurou o nome da empresa na internet. Encontrou um artigo curto, num jornal económico, que falava em insolvência e em modelo de negócio insustentável a médio prazo. Não falava em clientes. Não falava em mortos. Falava em ativos.
Em maio, num jantar, alguém perguntou e tu, perdeste alguém este ano?
José Manuel não chegou a ouvir. Tinha o telemóvel ao colo, por baixo da mesa, e estava a abrir um email que tinha entrado nessa tarde. O remetente era Consuello Memorial Asociados. O assunto, em português aproximado, dizia Aviso importante sobre o seu familiar Carla António.
Lamentavam o longo silêncio. Tinham adquirido recentemente os ativos da empresa anterior, num processo internacional complexo, e estavam agora em condições de retomar o serviço. A ficha emocional da sua irmã tinha sido preservada na íntegra. Estava-lhe disponível, mediante uma pequena taxa de migração, a opção de continuar a relação com a Carla nos novos servidores, com tecnologia melhorada e planos mais acessíveis. Em alternativa, podia substituir o registo por outro familiar à escolha. Sugeriam, dada a sua faixa etária, uma mãe.
Tinha um botão verde. Migrar Carla. Tinha um botão cinzento. Explorar outras opções.
A empresa estava sediada nas Honduras Britânicas, que ele sabia ter deixado de existir como entidade política em mil novecentos e oitenta e um. Reparou nisto e não reparou ao mesmo tempo, da maneira como se reparam estas coisas quando estamos com pressa.
À volta da mesa continuavam a falar. Alguém riu. Alguém serviu vinho. A pergunta sobre quem perdeu alguém este ano tinha-se resolvido sozinha entre os outros, com histórias de tios e de cães.
José Manuel olhou para os dois botões.
Pensou em clicar no verde. Pensou no preço. Pensou no postal, em cima da secretária do gabinete novo dele, com a vista para o pátio interior do ministério. Pensou na cassete, que ainda tocava.
Depois, sem decidir nada, começou a pensar noutra coisa. Tinha lido na semana anterior, num suplemento de domingo, que andavam a aparecer empresas a oferecer santos. Não santos canónicos. Santos pessoais, com biografia construída, com três milagres garantidos por trimestre, com festa anual em data à escolha do cliente. Pareceu-lhe, ali à mesa, com o telemóvel no colo e o vinho a meio do copo, uma ideia mais credível que a da irmã. Os santos, ao contrário das irmãs, podiam ser oficialmente venerados em público sem que ninguém precisasse de saber de onde vinham.
Guardou o telemóvel sem clicar em nada. Acabou o jantar. Em casa, nessa noite, abriu o portátil e procurou santo personalizado preço Portugal.
Apareceram quatro empresas. Três tinham sede em países duvidosos. A quarta parecia mais séria.
Tinha cinquenta e três anos. Tinha finalmente perdido alguém. Não havia ninguém a quem dizê-lo, mas isso, percebia agora, tinha solução comercial.
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