
Toina
Maria Antónia, na Póvoa Três, é um nome muito comprido. Na escola, a professora usava-o para lhe chamar à atenção. Mas, na vida prática no campo, ninguém tinha tempo para nomes tão compridos. Era a Toina, e bastava para tudo o que não fosse escolar.
Na escola, a professora apontou-lhe uma letra.
— Maria Antónia, que letra é esta?
— Não sei.
— Cabeça de alho chocho, Maria Antónia. Não sabes nada.
— Sei, sei. Sei quarenta e nove músicas. Mais uma...
Faltava-lhe uma para as cinquenta, porque o primo José Carriço — o Carriço, mais fácil de chamar por quem dele precisasse — ainda lha estava a ensinar. A professora ficou a saber.
Costura nunca aprendeu. Era o que se esperava das raparigas. A irmã aprendeu, ela não quis. Não gostava. Preferia a égua, e ajudar a semear e estrumar o trigo com o pai Abílio.
Andava escorripichada num cavalo desde que se lembrava. A mãe ralhava-lhe da porta:
— Ó Toina, andas a chalandrar! Olha a escola e os deveres.
As vizinhas benziam-se, os homens riam para dentro dos seus bigodes. A Toina passava direita a cavalgar as obrigações que o pai lhe dava. Quem quisesse afastava-se. A égua tinha sempre prioridade.
Fazia o que normalmente cabia aos homens. Subia a encosta a cavalo a buscar as sementes ou o que fosse preciso plantar. As outras miúdas, as que não queriam costura, ou ninguém lhas ensinava, andavam a apanhar caroços de azeitona para vender, para fazer bagaço. Nenhuma ousava cavalgar. Isso era para Toina, a machona. Cabelo cortado a Joãozinho, sempre pronta para as tarefas mais duras.
Quando lhe mandavam fazer alguma coisa, resistia. Quando lhe diziam que era melhor não experimentar, ou que não seria capaz, ganhava vontade de a fazer.
Quando a irmã precisava de água, dizia-lhe que não fosse à fonte. Se era preciso acabar de lavar o chão, dizia-lhe para descansar. A Toina conhecia a manha. Ia na mesma. Saber que a estavam a enganar não chegava para lhe tirar a vontade de contrariar.
O Abílio era cúmplice. Dizia à mesa, sem levantar os olhos do prato, que aquele burro só ele o metia na carroça. No dia seguinte o burro estava na carroça, e o pai fazia de conta que se admirava.
Aos dezasseis anos, pela Quinta-feira de Ascensão, houve as Cavalhadas no largo da Póvoa Três. A Toina inscreveu-se para correr. Quiseram-na inscrever na dos burros. O pai insistiu com a dos cavalos.
Dizia-se que as Cavalhadas vinham do tempo das lutas entre mouros e cristãos. Já não havia mouros nem cristãos para combater. No largo, armava-se um arco com uma argola pendurada. Os cavaleiros tinham de passar a galope e enfiar a ponta da vara na argola, levando-a consigo. Quem apanhasse mais argolas, ganhava.
Os foguetes começaram a estoirar quando nasceu o dia. Veio uma nuvem de gente. Uns pela festa, outros pela espiga.
Alguns chegaram de manhã. Vieram pela devoção e participaram no peditório e na missa de manhã nas Abitureiras. Muitos vieram só à tarde para a ver. Uma rapariga a correr nas Cavalhadas não era coisa que se visse. Mulheres a fazer torneios, a cavalo, naqueles tempos, era notícia que se espalhava depressa.
Cada vez havia menos rapazes a querer cavalhadas, preferiam as bicicletas que iam pelo cemitério até Abitureiras e voltavam por Albergaria. As cavalhadas de burros já tinham sido.
Eram duas as raparigas inscritas.
A Toina levou a sua égua. Era mansa, calma e obediente. Bastava falar-lhe baixo.
A outra que ia correr era a Maria Luísa, a Milisa, filha do Zé da Vaca, prima da tia Joaquina. Era uma dondoca. Só sabia bordar e costurar. Não sabia o que era um burro, quanto mais um cavalo.
O pai é que tinha arranjado a coisa. Apenas o orgulho de um homem que teve uma filha e não teve filho.
A rapariga aparecera no largo arreminada com as botas novas, e olhava a égua do pai como quem olha para uma máquina que não sabe ligar. Tinha o que se esperava de uma rapariga: o bordado e o pai a guardá-la. Mais tarde havia de casar com um rico, filho único. O que se esperava.
A outra égua era do Zé da Vaca, e era brava. Espantava-se com a sombra das próprias orelhas. Sentia os foguetes ainda antes de rebentarem. O Zé da Vaca nunca largava as rédeas. Dava-lhe volteio, segurava-a pelo cabresto, falava-lhe forte. Mostrava-a. A filha do Zé da Vaca ruminava de medo, com as duas pernas do mesmo lado da sela. Imóvel.
A Toina montava escarranchada, como os homens. Camisa branca e umas calças que a irmã lhe fez. Nenhuma mulher na terra usava calças. Por isso é que podia montar a homem. A Milisa também reparou nas calças. A Toina reparou nas botas novas da Milisa mandadas fazer em Almeirim. Eram bonitas. Nenhuma falou disso.
Ao passarem uma pela outra, a Milisa agarrou-se ao braço da Toina.
— Eu não quero montar nesta.
A Toina olhou para a sua égua. Olhou para a outra. No largo já havia quem reparasse.
— Vai na minha. Ela não te faz mal.
— E tu?
— Eu desenrasco-me.
Foi aí que o largo se calou por um instante. Depois veio o murmúrio dos homens.
— A rapariga meteu-se em trabalhos.
— Daquela cai ela.
— A égua não é para mãos de mulher.
A Toina não respondeu. Ouvir foi o que bastou.
Chegou-se à cabeça do animal, passou-lhe a mão pelo pescoço. Encostou a testa à testa da égua e disse-lhe qualquer coisa que ninguém ouviu.
Montou à segunda. À primeira, a égua rodou. Bastava alguém fazer shh que a égua levantava as patas no ar. A Toina apertava com as pernas e apertava o freio.
Rebentou o primeiro foguete quando ela ia a meio do largo. A égua deu um salto de lado que levantou pó até às janelas. A Toina segurou-se com as pernas e com aquilo que se traz de dentro para estes casos. Não caiu. Perdeu a argola.
Deu a volta.
Ao segundo foguete, a égua já sabia. Ou a Toina já lhe sabia o medo. Passou pelo arco baixa sobre o pescoço do animal, o braço estendido, e a vara saiu com uma argola presa na ponta.
Um homem confirmou a argola. A banda tocou.
O largo não bateu palmas logo. Levou um instante a perceber o que tinha visto. O Manel do Cão, um dos vizinhos que lá estava a ver, encostado ao muro, foi o primeiro a tirar o chapéu.
A Milisa terminou a corrida na égua mansa sem cair, o que já era muito.
Ao desmontar, deixou cair o lenço colorido. Foi o Julinho da Terra que o apanhou e o devolveu. Os homens riram mais do que no dia anterior quando ele correu no burro.
O Zé da Vaca tinha visto a argola na vara da Toina. Sabia perfeitamente o que tinha acontecido. Gabou a filha a toda a gente durante o resto da tarde.
Quem ganhou foi um de Pero Filho. Apanhou seis argolas. Ficou com o prémio.
À Toina, ninguém a gabou muito em voz alta. Nas terras assim, não se elogia demasiado uma mulher — traz azar, ou traz ideias. Mas ficou com a fama. A família orgulhou-se dela, e ela tinha orgulho no que fez.
O Abílio não precisava que lhe contassem como tinha sido. Conhecia-a. A irmã também. Tinham passado anos a dizer-lhe que não era capaz para conseguirem que fizesse as coisas. Naquele dia tinham sido os homens do largo a fazer o trabalho por eles.
Durante anos, quando se falava da Quinta-feira de Ascensão daquele ano, alguém acabava sempre por dizer:
— Foi no ano em que a Toina correu na égua brava.
E os que lá estiveram acrescentavam sempre a mesma coisa, como quem reza:
— Emprestou a dela à outra, lembras-te?
A Milisa casou e seguiu a vida. A Toina também: casou, teve filhos, continuou.
Mas naquela noite houve baile. As outras ficavam nas cadeiras. A Milisa ficou sentada, arreminada, a abanar-se toda. A Toina era sempre convidada. A primeira, e as seguintes. Dançava bem. Adorava dançar. Dançava-se a moda dos casados, uma roda — ninguém ali sabia tangos. Dançava à mesma. O Carriço tocou a última. A Toina acompanhou.
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