Edital n.º 17/2026 — O Frasco de Pensal
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Edital n.º 17/2026 · · Desadultando · capítulo 7 de 7

O Frasco de Pensal

No dia em que o Estado lhe ia atribuir uma menção honrosa, a Dona Quitéria não procurou o frasco, porque era sábado. Procurava-o às terças e às sextas, que eram os dias em que lhe doíam menos as costas.

Levantou-se às seis, como sempre. Quando o vento vinha da fábrica, a cozinha cheirava a Pensal antes de ela o fazer. Fez o Pensal e bebeu-o de pé.

Na despensa, na prateleira de cima, havia quarenta e três frascos de Pensal, a maioria com grão, feijão-frade e botões. Dois com parafusos do falecido, um com moedas de escudos, outro com elásticos e mais um com rolhas. Deviam ser quarenta e quatro.

Às nove e um quarto telefonou a Delfina Ramos, do protocolo da cerimónia. Era a quarta vez nessa semana. Ligava sempre à mesma hora, o que a Dona Quitéria apreciava numa pessoa. Poupava-lhe a pergunta — Quem será a esta hora? — antes de se levantar.

— Dona Quitéria, bom dia. Fala a Delfina Ramos.

— Bom dia, menina.

— Era só para confirmar a sua presença.

— Não vou.

— Certo. Compreendo.

Ouviu-se um teclado.

— Posso registar como ausência justificada?

— Justificada com quê?

— Tem de haver um motivo.

— Não me apetece.

O teclado parou.

— Compreendo. Fica sem justificação.

— Fica como a menina achar melhor.

— A cadeira fica na mesma. Com o seu nome.

— Faz bem. Obrigada.

Ao meio-dia chegou a Matilde, que tinha nove anos e era bisneta. A mãe deixou-a à porta e seguiu para Aveiro. Almoçaram sopa e carapaus fritos. A miúda adorava e em casa da mãe não se frita peixe.

À uma e meia a Matilde ligou a televisão, porque o directo começava às duas e ela queria ver o senhor Albano. O Jornal da Tarde ainda ia nas guerras. Nesse dia havia quatro a relatar.

O directo abriu com o comunicado. A pivô leu-o devagar.

Na sequência dos pedidos de esclarecimento recebidos de vinte e três Estados, o Governo de Portugal informa que o recipiente associado à Menção Honrosa para a Sustentabilidade Planetária não se perdeu.

Compreendemos a preocupação. Compreendemos a expectativa. Compreendemos a importância.

Trata-se de uma indisponibilidade temporária de localização. A informação relativa ao recipiente encontra-se classificada como segredo de Estado, pelo que não é possível confirmar, neste momento, a sua localização exacta.

Esta circunstância em nada compromete a segurança, a estabilidade e a confiança que o País merece.

O recipiente existe, encontra-se em território nacional e continua a desempenhar a sua função.

Em suma, Portugal reafirma o seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a paz.

Agradecemos a compreensão de todos.

(Texto gerado com recurso a inteligência artificial.)

A pivô leu também a última linha, no mesmo tom das outras.

O comunicado tinha sido traduzido nessa manhã para vinte e três línguas. Em nenhuma se percebeu que era um pedido de desculpa.

— Avó Quitéria, o que é um recipiente?

— É o frasco.

— Perdeste-o?

— Guardei-o.

— Onde?

A Dona Quitéria levantou-se para ir buscar a fruta.

A cerimónia começou às três, nos Jerónimos, por ser dia de Camões.

Em 2028, quando Portugal convidava, vinham todos.

Na primeira fila sentaram-se o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o presidente da Junta de Freguesia de Avanca, que tinha prioridade por ser da terra da homenageada. Os chefes de Estado estrangeiros ficaram da terceira fila para trás, por ordem alfabética em francês, como é costume.

— Olha o senhor Albano — disse a Matilde.

O senhor Albano acenou para a câmara.

Na segunda fila estavam as cadeiras dos premiados, cada uma com o seu cartão. A câmara passou por elas devagar. Havia uma vazia, e era a do cartão mais comprido: QUITÉRIA DA CONCEIÇÃO NOGUEIRA. Ao fundo via-se a Delfina, de auricular, a recontar cadeiras com o dedo.

Houve discursos, que a Dona Quitéria aproveitou para lavar a loiça.

O primeiro prémio foi o de Soberania Tecnológica. Atribuído às detentoras do conhecimento tradicional do bacalhau, “pela transmissão oral de procedimentos não passíveis de formalização nem de reprodução por sistemas de inteligência artificial”. Subiram todas, porque ninguém tinha conseguido apurar qual delas detinha o procedimento original. Eram vinte e duas. O palco era para doze, mas a Delfina tinha previsto.

* * *

Em 1946, em Matosinhos, a Quitéria tinha treze anos e trabalhava na fábrica do Ramalho desde os onze.

As mulheres iam quando o apito tocava, e o apito tocava quando os barcos entravam com sardinha, fosse a que horas fosse. Uma noite de Natal o apito tocou às três da manhã, e foram todas, com a consoada ainda no estômago.

Na fábrica, a Quitéria descabeçava a sardinha. Era o que se dava às mais novas: uma faca pequena, um banco baixo, a sardinha na mão esquerda e a cabeça ia para o balde. Ao lado dela trabalhava a Aurora, que tinha trinta anos de fábrica e as mãos gretadas da salmoura até aos pulsos. A pele da cara estava impecável.

No canto da salga, a Aurora tinha um alguidar de barro tapado com um pano velho, a que as mulheres chamavam a “mãe”. Todas as manhãs a Aurora tirava de lá uma colher de pau cheia e deitava-a no molho. O molho ficava melhor. Era a única que mexia na “mãe”. Sabiam que era a razão do sucesso da marca Ramalho e ninguém lhe invejava a tarefa. A Aurora já encontrara o alguidar naquele canto quando começara na fábrica.

O encarregado era o Joaquim da Conceição, mestre conserveiro, quarenta e seis anos, bata branca. Tinha estado numa fábrica de Setúbal que exportava para Inglaterra e de lá trouxera a palavra higiene, que usava muito.

Um dia, em outubro, o encarregado levantou o pano velho e cheirou o alguidar.

— Isto tem bichos.

— Tem — disse a Aurora.

— Então vai ao lume.

— Não vai.

— Vai, que eu mato-lhos.

Nessa noite ficou depois do turno e colocou o alguidar na fornalha da caldeira. De manhã encontraram-no sentado no chão, encostado à caldeira, de olhos abertos. A colher de pau estava ao pé dele. O médico disse que tinha sido o coração. O alguidar estava onde ele o deixara, e o que tinha dentro já não era da cor de antes.

O enterro foi no dia seguinte. A fábrica parou meia manhã.

Ainda nessa semana, a Aurora chamou a Quitéria ao canto da salga. Tinha passado o que restava para um púcaro de barro, tapado com um pano atado com cordel. Entregou-lhe o púcaro e a colher de pau.

— Trata disto.

— Eu? E faço o quê?

— Mudas-lhe a água e não lhe chegas com ferro.

— E sal?

— Pões.

— Quanto?

— O que precisar. Mais não.

Em dezembro, a Quitéria esqueceu-se do sal e a “mãe” azedou. A Aurora foi ao escritório do encarregado e voltou com um frasco do cofre, que ficara aberto desde outubro. Despejou-o no púcaro sem olhar para o rótulo, que dizia DESINFECTANTE. A “mãe” ficou com a cor do costume.

Em quarenta e oito, a fábrica Ramalho fechou. A Quitéria levou o púcaro para casa.

Depois foram quase oitenta anos. A “mãe” passou do púcaro para uma malga tapada com um pires, da malga para um frasco de compota, do frasco de compota para uma garrafa de licor. Em cinquenta e cinco a Quitéria casou e foi para Avanca. Levou a “mãe” ao colo, na camioneta da carreira. Em setenta e seis o médico proibiu-lhe o café, entrou o Pensal lá em casa, e a “mãe” passou para o primeiro frasco vazio. Ficou lá. Não havia razão para mudar.

Fez conserva a vida inteira, para casa e, a partir de certa altura, para a feira. Uma colher da “mãe” em cada frasco.

* * *

Em março de 2026, na feira de Avanca, a Dona Quitéria tinha uma banca de metro e meio entre o homem das meias e a senhora dos queijos. Tinha catorze frascos de todos os tamanhos e um papel com os preços.

A ASAE chegou às dez. Eram dois inspectores: um rapaz com um tablet e uma senhora que fazia as perguntas.

— Bom dia. ASAE.

— Bom dia.

— Isto é para venda?

— É para quem quiser.

— A quanto?

— Três euros o pequeno. Cinco o grande.

— Então é para venda.

A inspectora pegou num frasco e virou-o. Na tampa havia um bocado de fita-cola com uma palavra escrita a esferográfica.

— Isto é o quê?

— É o mês.

O rapaz escreveu.

AUTO DE NOTÍCIA

Arguida: Quitéria da Conceição Nogueira, 93 anos, residente em Avanca.

Produto: conserva de peixe em frascos de vidro reutilizados. Catorze unidades.

Rotulagem: inexistente. Fita-cola na tampa, com a inscrição MARÇO.

Composição declarada: sardinha, azeite, sal e “mãe”.

Quantidade de sal: “o que precisar”.

Data de fabrico: “assim que ficou pronta”.

Medida cautelar: apreensão.

A Dona Quitéria assinou. Demorou, porque assinava o nome todo.

A coima chegou pelo correio. Pagou-a nos correios, quando foi buscar a reforma. Em casa não se falou mais nisso.

Um dos catorze frascos seguiu para o laboratório, em Lisboa, como manda o procedimento. Os outros treze seguiram para destruição, como manda o procedimento.

No laboratório, a amostra foi consumida no ensaio. O técnico registou na caixa de observações, por não haver outra, que durante o ensaio o dióxido de carbono da sala tinha descido para valores que o aparelho não previa. Quis repetir e não tinha com quê. Pediu os outros treze. Tinham sido destruídos na véspera, com uma prontidão que depois ninguém conseguiu explicar ao ministro.

Em maio bateram-lhe à porta dois senhores de Lisboa e uma senhora portuguesa, mas que vinha de Bruxelas.

— Dona Quitéria?

— Sou eu.

— Existe mais?

— Mais quê?

Um dos senhores olhou para um papel.

— Da mãe.

— Existe.

Levou-os à despensa. Mostrou-lhes o frasco de Pensal. Os três ficaram a olhar para o frasco. Era só aquilo.

Falaram uma hora na sala. Disseram consentimento prévio informado e termos mutuamente acordados. A senhora de Bruxelas disse planeta duas vezes. A Dona Quitéria ofereceu-lhes café, que não tinha, e serviu-lhes Pensal.

Quando se foram embora, a vizinha, a Graciete, veio ao muro perguntar o que queriam.

— A “mãe”.

— E deste-lha?

— Aqueles senhores não sabem tratar disto.

Nessa noite, depois do telejornal, guardou o frasco num sítio onde ninguém o fosse procurar.

Voltaram muitas vezes, cada vez com mais papéis. Numa delas, a senhora de Bruxelas reparou que o frasco já não estava na prateleira e perguntou onde estava.

— Não sei — disse a Dona Quitéria.

Era mentira.

* * *

Na televisão, a cerimónia ia na sardinha.

O Prémio de Cibersegurança e Soberania Digital foi para a Lota de Sesimbra, “pela preservação do padrão tradicional da sardinha, cuja reprodução manual impede a identificação por sistemas automáticos de visão, e pelo contributo decisivo para a integridade do território nacional nos acontecimentos de Elvas”.

Subiu ao palco o presidente da cooperativa, de camisola pintada à mão. A realização tentou três planos e desistiu. No rodapé apareceu IMAGEM INDISPONÍVEL, e ficou lá até ele se sentar.

As camisolas certificadas pelo Estado tinham deixado de funcionar no mês em que foram certificadas. As que as mulheres dos pescadores pintavam à mão, na lota, continuavam a funcionar. O presidente da cooperativa levava uma dessas.

Em fevereiro, uma coligação militar sem nome tentou invadir Portugal por Elvas. Os drones não conseguiram interpretar os padrões tradicionais das sardinhas, reproduzidos à mão nas camisolas dos soldados portugueses. A invasão ficou por ali.

Os drones pararam em Elvas, em fila ao longo do aqueduto. A Câmara cobrava-lhes estacionamento. Tinham avença paga até dezembro, e ninguém sabia quem pagava.

— Avó, os drones são de quem?

— Dos do costume.

Depois a apresentadora leu:

— Menção Honrosa para a Sustentabilidade Planetária. Quitéria da Conceição Nogueira, noventa e cinco anos, residente em Avanca.

A fundamentação era comprida. Dizia que o contributo da homenageada não fora verificado pelo júri, mas fora considerado relevante. Dizia também que o Estado lhe pedira autorização para estudar o conteúdo do recipiente, nos termos do Protocolo de Nagoia, com o consentimento prévio informado, e que a detentora recusara, nos seguintes termos: “aqueles senhores não sabem tratar disto”.

A apresentadora leu a frase com cuidado, para não parecer que era dela. Nas filas de trás, os chefes de Estado ouviram-na nos auscultadores da tradução e não se mexeram.

Houve aplausos. A câmara foi à cadeira vazia e ficou lá.

— Avó, é a tua cadeira.

— Aquilo é desconfortável.

Depois a apresentadora pediu um minuto de silêncio.

— Em memória dos que alcançaram os feitos referidos: Joaquim da Conceição, mestre conserveiro, Matosinhos. E dos que tombaram: Padre Félix, da paróquia de Avanca.

Para a Dona Quitéria, o Joaquim da Conceição tinha sido sempre o encarregado. Não sabia que era mestre.

Quando ouviu o nome do Padre Félix, a Dona Quitéria pousou a chávena.

Tinha-se confessado a ele na Quaresma do ano anterior, na igreja de Avanca, às quatro da tarde, que era a hora dele.

— Menti a uns senhores, senhor padre.

— Em quê?

— Disse que não sabia onde estava uma coisa.

— E sabe?

— Sei.

— Onde?

Ela disse-lhe. Ele deu-lhe três ave-marias e nunca mais falou no assunto. Morreu em novembro, na sacristia, com oitenta e dois anos, sem o ter revelado a ninguém.

A Dona Quitéria lembrava-se de tudo. Do perdão, das ave-marias, da hora e do cheiro a cera queimada. Do esconderijo, não.

No claustro, ninguém se mexeu. A Matilde também não, porque era o que a televisão pedia. A Dona Quitéria levantou-se e foi à despensa, apesar de ser sábado.

Durante um minuto, o único barulho que houve em Portugal foi o das tampas dos frascos de Pensal, em Avanca, a abrir e a fechar.

A cerimónia acabou às cinco e dez. A novela começou com uma hora de atraso, e a Dona Quitéria viu-a toda, com a Matilde a dormir-lhe no colo.

Nos meses seguintes, continuou a procurar o frasco, nos dias em que as costas deixavam. Não o encontrou.

Em Elvas, as cegonhas fizeram ninho nos drones.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
22 de Outubro de 2026

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