
O abaixo assinado, chamado a pronunciar-se sobre a polémica entre o capitão da Selecção Nacional e o novo seleccionador, verifica que a mesma terminou porque ganhámos e que voltará porque é nossa. Pronuncia-se na mesma, para os devidos efeitos.
Considerando que, a 10 de Julho de 2026, na apresentação como seleccionador, Jorge Jesus declarou que Cristiano Ronaldo «nunca vai ser um problema» e recordou tê-lo substituído dezasseis vezes, o que metade do país recebeu como garantia e a outra metade como aviso;
Considerando que, tendo o capitão abandonado os trabalhos, a Selecção teve outro capitão, por ser obrigatório haver um, e que o número 7 foi vestido por outro jogador, por o regulamento não admitir camisolas vazias, tendo assim o problema do CR7 ficado resolvido por força do regulamento, sem intervenção de ninguém;
Considerando que, apurados os resultados, Portugal ganhou, o que é sempre o mais importante, para todos, não constando nos autos outro prejudicado além da Dinamarca;
Considerando o precedente Anjos / Joana Marques, em que uma parte fez um espectáculo e a outra fez publicidade, tendo ambas apresentado lucro e o público apenas opinião;
Considerando que este serviço procurou nos autos polémicas similares resolvidas, com o seguinte resultado:
Batalha de São Mamede, 1128 — D. Afonso Henriques contra D. Teresa. O país nasce de uma zanga com a mãe. Resolvida por ter sido a mãe a derrotada, não pela questão colocada aos portugueses.
Crise de 1383-1385 — Mestre de Avis contra D. Beatriz, nobreza de um lado, cidades do outro. Resolvida em Aljubarrota, por incapacidade dos castelhanos que ofereceram demasiado o flanco, com a defesa desequilibrada e demasiado espaço no meio-campo.
D. Pedro e Inês de Castro — amor para uns, problema de Estado para outros. Pendente desde 1355.
D. Sebastião e o Sebastianismo — herói ou irresponsável. Pendente, aguardando a chegada do próprio.
Marquês de Pombal — modernizador ou tirano. Pendente, com o Terreiro do Paço a servir de prova aos dois lados.
Referendo da Regionalização, 1998 — o país foi às urnas decidir se se dividia em regiões e decidiu continuar dividido sem elas.
Acordo Ortográfico de 1990 — a única polémica sem partido, por nenhum a querer. Pendente. Este despacho é lavrado na grafia anterior, para constar.
Salvador Sobral, Eurovisão 2017 — metade do país deu a canção por perdida antes de a ver ganhar. Única polémica resolvida nos autos, e por acidente.
Super Bock ou Sagres; fino ou imperial; bica ou cimbalino — pendentes, com fronteira algures a norte de Coimbra.
Regras das rotundas — todos os inquiridos sabem circular nelas e confirmam que os restantes não. Pendente.
Considerando que em nenhum consta resolução, mas em todos consta uma substituição pela polémica seguinte, o que, para efeitos administrativos, é o mesmo;
Considerando, porém, o caso Gordon Ramsay e a bifana portuguesa, 2021 — rúcula, queijo e pimento —, em que o país, sem instrução nem prazo, se pronunciou no mesmo sentido com uma rapidez que nenhuma questão interna alguma vez mereceu;
Considerando que daqui se extrai a regra: Portugal divide-se quando a questão é nossa e une-se quando alguém de fora mexe numa coisa nossa;
Determino:
1.º Mais do mesmo. Que se arquive o processo por apensação ao de 1128, por identidade de factos e diferença apenas de nomes, sem prejuízo de reabertura à próxima convocatória.
2.º Continuamos iguais. Que o público seja dispensado de tomar partido nas polémicas seguintes, por não ter interesse na causa nem lucro no desfecho, mantendo-se autorizado a fazê-lo, por ser o costume.
3.º Mas há esperança. Que se registe que o país, incapaz de concordar sobre a bica, as rotundas e D. Sebastião, concordou sem hesitar sobre a bifana. Que se tome nota como prova de que a união é possível, desde que a ameaça seja pequena, estrangeira e tenha rúcula.
Cumpra-se. Publique-se. Discorde-se.
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