
A Máquina de Escrever Amestrada
Desde pequeno que todos me olham de lado. Durante anos não percebi porquê, mas hoje já sei: era inveja. Sou um brilhante domador de máquinas de escrever, e isso, num mundo que escreve com os polegares, incomoda muita gente. Ora, comecemos pelo início.
Uma máquina de escrever é um aparelho mecânico com teclas que, ao serem carregadas, fazem pequenas peças metálicas bater numa fita com tinta e imprimir letras, números e símbolos numa folha de papel. Carregas no A → aparece um A no papel, definitivo, orgulhoso e impossível de fingir que nunca aconteceu. Não há "Undo" nem backup, e o copy-paste é feito através de papel químico.
Ao contrário de um periquito, ou papagaio, a minha máquina de escrever mordia-me os dedos, não quando lhe dava um fruto seco ou uma couve, mas quando eu tentava escrever frases feitas, ou ideias comuns. Tinha uma personalidade imensa.
Chamava-se Teleia.
O nome parece brasileiro, mas é grego. Vem de *teleios*, que quer dizer perfeito, completo, acabado. Não fui eu que lhe pus o nome. Foi ela que se apresentou assim, no terceiro dia, depois de eu tentar várias vezes escrever "olá, sou novo aqui" e ela me ter respondido sempre com a mesma palavra: TELEIA. TELEIA. TELEIA. Até eu perceber que não era avaria. Era apresentação.
Todas as manhãs, eu saía de casa, antes de ir para a escola, para ir passear a minha máquina de escrever. Tenho sempre de escrever um resumo do dia anterior, aprender uma palavra nova ou expor uma teoria antes de poder ir ao meu dia. A Teleia exigia este passeio diário com a mesma firmeza com que outros cães exigem festas. Se eu saltasse um dia, ela trancava-se. Não literalmente. Mas as teclas ficavam duras, a fita encrespava, e quando eu finalmente tentava escrever qualquer coisa, saía sempre torto, como se estivesse zangada e quisesse que eu soubesse.
Tinha mais manias.
Não escrevia logo. Exigia um minuto inteiro de silêncio antes da primeira tecla. Aprendi isto à minha custa. Nas primeiras semanas, atirava-me ao papel mal me sentava, e ela respondia com símbolos aleatórios, pontos de exclamação a meio de palavras, parêntesis sem motivo, um til a flutuar sozinho como se estivesse a contemplar a vida. Demorei a perceber que aquilo não era avaria. Era protesto. A Teleia precisava de um minuto de silêncio para arrumar as ideias dela antes de aceitar as minhas.
Tinha alergia a emojis. Isto, no início, não foi problema, porque uma máquina de escrever não tem teclas para emojis. O problema veio depois, quando os meus colegas começaram a escrever-me bilhetes com carinhas desenhadas à mão, e eu, distraído, copiei um para a Teleia. Ela mordeu-me o dedo médio com tanta força que sangrou. Foi a única vez. Aprendi.
Só aceitava metáforas se fossem úteis. Esta foi a mania mais difícil de respeitar. Eu, na escola, tinha aprendido que metáforas eram bonitas. A Teleia tinha aprendido que eram, na maior parte dos casos, decorativas. Quando eu escrevia "o sol era um olho de ouro no céu", ela engasgava-se. Mas quando eu escrevia "a tristeza é uma mala que pesa mais quando ninguém oferece ajuda", ela aceitava sem protesto. Levei meses a perceber a diferença. A metáfora útil é a que faz uma pessoa perceber uma coisa que sem ela não teria percebido. A metáfora decorativa é a que substitui uma palavra simples por uma combinação bonita. A Teleia distinguia as duas com a precisão de um professor de Português reformado e maldisposto.
E tinha uma tecla preferida. O “A”.
A primeira do alfabeto. A vogal das vogais. A tecla que ela carregava com mais entusiasmo, mesmo quando o A não fazia falta. Se eu escrevesse "tarde", às vezes saía "taArde". Se escrevesse "casa", saía "caasa". No início, achei que era avaria. Tentei limpar, ajustar, oleá-la com aquele óleo de costura da minha avó. Nada. Continuava a fazer o A em duplicado quando estava feliz. Acabei por perceber que era assim que ela ria. As pessoas riem com a boca. As máquinas de escrever, pelos vistos, riem com a tecla preferida.
---
No entanto, antes de a poder passear com bonitos textos, crónicas ou apenas ideias para o futuro, empenhei muito do meu tempo a domesticá-la. Ela só queria escrever memes e sms. No máximo com 160 caracteres (incluindo espaços). Era burra, preguiçosa, seca e directa.
E havia um problema específico: a Teleia tinha aprendido a escrever no século errado. Quando eu lhe pedia coisas longas, com pontuação a sério, ela respondia como se estivesse num grupo de WhatsApp. Traduzia. Era o seu instinto.
A pior tradução de todas aconteceu numa tarde em que decidi levar para a escola o poema *O Guardador de Rebanhos*, do Fernando Pessoa. Tentei vezes sem conta datilografá-lo. Ainda tenho o papel onde está escrito o seguinte:
Sou tipo pastor de pensamentos.
A minha tropa de ovelhas são as cenas que penso.
E as cenas que penso são tudo vibes. Penso c/ olhos e c/ os ouvidos.
E também com as mãos e os pés. E com o nariz e a boca, ya.
Mano, a flor é bacana e cheira bué fixe.
A fruta tem sabor, literalmente.
Por isso, num dia bué quente, o meu mood é random mas a vibe é fixe,
deito-me dramático na relva, fecho os olhos com o calor absurdo,
sinto o corpo todo ali, mesmo low-cost real,
percebo a cena e não me sinto NPC.
Foi mesmo difícil ensinar-lhe a poesia lírica introspetiva com reflexão filosófica. O treino durou meses.
Comecei pelo silêncio. Sentava-me à frente dela com as mãos no colo, sem tocar nas teclas, e ficava assim durante minutos inteiros. Ela, no início, achava que eu estava a brincar. Carregava sozinha em teclas aleatórias para ver se eu reagia. Não reagia. Ficava quieto. Ao fim de duas semanas, ela percebeu que silêncio não era ausência. Era preparação.
Depois ensinei-lhe paciência. Esta foi mais difícil, porque a paciência não se ensina, contagia-se. Eu próprio não tinha muita. Mas comecei a escrever frases lentas. Uma palavra por minuto. Depois uma palavra por dois minutos. Depois parágrafos inteiros que demoravam tardes. Ela protestou no princípio — mordia, encrespava a fita, fazia o A em duplicado mesmo onde não devia. Mas ao fim de um mês começou a desacelerar comigo. Ficámos os dois lentos. Era estranho. Era bom.
A parte mais difícil foram as palavras compridas.
A Teleia tinha sido educada ( se é que se pode dizer isto de uma máquina) num ambiente de abreviaturas. "Bjs", "tbm", "vc", "pq". Quando eu lhe punha à frente palavras como "melancolia", "perscrutar", "inefável", ela tremia. Não conseguia. Saía sempre uma versão truncada. "Melanc". "Persc". "Inef". Aprendi a dividi-las. Primeiro a primeira sílaba. Depois a segunda. Depois a juntar. Como quem ensina uma criança a ler, mas ao contrário: a Teleia já sabia ler depressa. Tinha de aprender a ler devagar.
Ao fim de seis meses, conseguia digitar Pessoa. Não o Pessoa-versão-meme do princípio. O Pessoa a sério. Linha por linha, com os "porquês" todos por extenso, com os pronomes todos no sítio, com as vírgulas a respirar como devem.
Lembro-me do dia exato. Era uma manhã de outubro. Estávamos os dois sentados à mesa da cozinha, ela na frente de mim, e eu escrevi:
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Ela não mordeu. Não encrespou. Ficou quieta.
Eu também.
Acho que foi nesse momento que percebi que ela não era uma máquina. Era uma aluna. E eu não era um domador. Era um colega de turma um bocadinho mais velho.
Foi por essa altura que começou o problema da escola.
A escola, nos meus tempos, ainda permitia telemóveis. Não era boa ideia, mas era a regra. Toda a gente tinha telemóvel. Eu não. Tinha a Teleia. Levava-a às costas numa mala de couro velho que tinha sido do meu avô, e quando os professores pediam um trabalho escrito, eu pedia licença para a usar. A maior parte achava graça. Alguns achavam excentricidade. Um ou outro achava provocação.
Os meus colegas achavam, sobretudo, que eu era estranho.
E havia a Mariana.
A Mariana escrevia. Escrevia bem, isto é importante dizer. Tinha um Instagram com mais de quarenta mil seguidores onde publicava o que ela chamava "micro-poesia". Frases curtas, em fundos pastel, com uma fonte cursiva. Coisas como "o silêncio é uma forma de barulho que ainda não foi inventada" ou "amar é dar o primeiro passo sem perguntar se há chão". Não eram frases más. Algumas eram boas. Eu próprio, em segredo, achava que algumas eram melhores do que aquilo que eu conseguia escrever com a Teleia. Mas eram diferentes.
Eram rápidas. Eram polidas. Eram feitas para o scroll. A Mariana escrevia uma frase, mostrava ao grupo da turma, recebia trinta corações em três minutos, e passava à seguinte. Em meia hora podia produzir vinte frases. Em meia hora, eu e a Teleia tínhamos escrito, com sorte, três linhas de qualquer coisa que ainda não sabia bem o que era.
A professora de Português, que se chamava Dona Helena e tinha cabelo cinzento curto e óculos pendurados ao pescoço, anunciou um dia o concurso.
— Vamos fazer uma antologia da turma — disse ela. — Cada um escreve um texto. Pode ser poesia, prosa, o que quiserem. No fim, votamos os três melhores e publicamos num pequeno livro.
A Mariana levantou o telemóvel.
— Posso usar isto?
— Pode usar o que quiser — disse Dona Helena. — Desde que escreva.
A Mariana sorriu para mim do outro lado da sala. Não foi um sorriso mau. Foi pior. Foi um sorriso de quem sabe que vai ganhar e tem pena de mim.
Em casa, contei à Teleia.
Sentei-me à frente dela, fiz o minuto de silêncio, e escrevi: "Há um concurso na escola. Acho que vamos perder."
Ela não respondeu imediatamente. Esperou. Depois, muito devagar, fez sair uma única letra:
**A.**
Só isso. Não percebi se era encorajamento ou troça. Talvez fosse os dois.
---
Nos dias seguintes, tentei escrever qualquer coisa. Não saía. A Teleia mordia-me sempre que eu tentava ser bonito. Mordia-me sempre que eu tentava ser profundo. Mordia-me sempre que eu tentava parecer-me com a Mariana.
Uma noite, frustrado, escrevi-lhe diretamente na folha:
"Talvez devêssemos só escrever uma frase curta. Bonita. Uma daquelas que as pessoas partilham."
A Teleia não mordeu. Pior. Aceitou.
Escreveu, a meu mando, duas frases naquele estilo. Saíram-lhe sem protesto. Saíram-lhe limpas, polidas, prontas a publicar. Tipo: "a saudade é o tempo a pedir desculpa por ter passado depressa de mais". Ou: "somos todos guardadores de rebanhos que perdemos as ovelhas."
Esta última doeu-me especialmente, porque era plágio do Pessoa disfarçado de frase de Instagram. Olhei para as duas frases. Eram boas. Eram partilháveis. Iam ganhar o concurso, provavelmente.
E a Teleia, durante toda a noite, não fez um único A fora de sítio. Estava silenciosa. Estava obediente. Estava, pela primeira vez desde que a conhecia, vulgar.
Senti uma coisa estranha no peito. Era vergonha. Mas não era vergonha minha. Era vergonha por ela.
---
Rasguei as folhas.
Voltei a sentar-me à frente dela. Fiz o minuto de silêncio. Mais longo do que costume. Fiz dois minutos. Três.
Depois escrevi devagar, uma palavra de cada vez, sem pensar em concurso, sem pensar na Mariana, sem pensar nos quarenta mil seguidores:
"A minha máquina de escrever chama-se Teleia. Morde-me os dedos quando minto. Não é mágica. É só lenta. E há coisas que só se percebem devagar."
Foi tudo o que escrevi. Quatro linhas. Trinta e três palavras. Um parágrafo.
A Teleia, ao fim da última palavra, fez três A em duplicado seguidos. Não havia A na frase final. Mas ela fez na mesma.
---
No dia do concurso, levei a folha para a escola.
A Mariana leu primeiro. Tinha escolhido oito micro-poemas, todos magníficos, todos prontos para o telemóvel, todos com aquela qualidade fluida e brilhante que faz as pessoas dizer "uau" antes de continuar a fazer scroll. A turma aplaudiu. Dona Helena fez que sim com a cabeça.
Depois leram outros. Houve um rapaz que escreveu uma piada sobre futebol que toda a gente achou ótima. Houve uma rapariga que escreveu sobre o avô que tinha morrido, e que fez uma colega chorar.
Quando chegou a minha vez, levantei-me e li as quatro linhas.
Houve silêncio.
Não era o silêncio bom. Era o silêncio de quem não sabe se aquilo era para rir ou para ter pena. A Mariana sorriu, com aquela pena de antes. Alguns colegas olharam para os telemóveis. Dona Helena olhou para mim por cima dos óculos.
Sentei-me.
A votação foi por papelinhos. A Mariana ganhou, com vinte e dois votos. Outro colega ficou em segundo, com nove. O rapaz da piada de futebol ficou em terceiro, com sete.
Eu tive um voto. Foi o de Dona Helena.
No fim da aula, ela pediu-me para ficar.
— Posso ver a folha? — perguntou.
Estendi-lhe.
Ela leu. Releu. Tirou os óculos, limpou-os à camisola e voltou a pô-los.
Dona Helena não disse nada durante muito tempo. Depois disse:
— Esta frase, no fim. "Há coisas que só se percebem devagar." É tua?
— É da Teleia — respondi.
— Da máquina?
— Sim.
Ela devolveu-me a folha.
— Continua a escrever com ela. Mesmo que não ganhes nada.
E foi a única coisa que disse.
---
A Teleia morreu, anos depois. Não literalmente. As máquinas de escrever não morrem. Mas houve um dia em que a fita acabou e a fita que se vendia já não servia, e o mecanismo do A — a tecla preferida — cedeu finalmente, depois de anos a insistir em estar duas vezes onde só era preciso uma. Levei-a a um homem que arranjava máquinas antigas, em Lisboa, e ele disse-me que tinha conserto, mas que a peça era muito difícil de encontrar, e que talvez fosse melhor deixá-la descansar.
Deixei-a descansar.
Está na minha estante, ao lado dos livros. Os meus filhos perguntam-me às vezes o que é aquilo. Eu digo que é uma máquina de escrever. Eles perguntam se funciona. Eu digo que sim, mas que precisa de descanso. Eles riem-se, seguem para outra coisa qualquer.
A Mariana, hoje, é jornalista, escreve bem, e às vezes leio o que ela publica. Aprendeu a desacelerar. Talvez todos acabemos por aprender o que a Teleia me ensinou.
Mas, ainda hoje, quando vejo um adolescente a digitar com os dois polegares na velocidade da luz, penso na minha máquina e na ideia que ela salvou.
Não venceu o mundo. Não era suposto.
Salvou apenas uma ideia verdadeira, num dia de outubro, à mesa da cozinha de uma casa à beira-maar.
E para uma máquina que se chamava Teleia, isso era o suficiente.
Comentários
-
Olá André. Bem, estou sem palavras e!
-
Muito bom 👏👏👏

