Edital n.º 08/2026 — Aquela Guitarra Marada
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Edital n.º 08/2026 · · Desadultando · capítulo 2 de 6

Aquela Guitarra Marada

O avô contava-me uma história sobre uma guitarra que comprou em Lourenço Marques, sempre da mesma maneira. Contava-a sempre com a tranquilidade de quem sabe do que fala.

Segundo ele, durante quatro meses fez parte de uma banda de rock. Ele, o Pedro, o Jonas e a Cláudia. Tocaram em quase todas as salas decentes de Lourenço Marques. Tocavam sobretudo temas franceses: canções de amor ou rock and roll. De vez em quando, traduziam as canções para português.

— Mas, avô, tu não sabes tocar nenhum instrumento! — dizia eu.

— Ah, ah! Pois aí é que a história é mágica. É aí que entra a guitarra marada. Era diabólica, mas no bom sentido. Espetacular.

E começava sempre pelo princípio. O verão em que o pai o mandou para Lourenço Marques. Foi para trabalhar com o tio e aprender alguma coisa sobre a vida.

O tio era agricultor e ele deveria aprender a lavrar, semear, gradar e a saber como tratar o milho, a espiga e mais não sei o quê. Era, além de agricultor, um excelente professor. E essa é parte difícil da história. Ou a fácil, depende que quem a conta.

Estou a contar a versão que o meu avô contava. Segundo ele, correu tudo exatamente como devia correr. Os problemas são sempre colocados por quem a escuta e fica com vontade de fazer perguntas. Uma história é uma história.

— Avô, mas isso não faz sentido.

E ele respondia sempre:

— Pois não. Ainda não.

Depois bebia o seu café, como se a frase tivesse respondido a tudo o que havia para saber.

*

O tio, esse excelente professor de milho, acordava cedo. Era aborrecido e quase indecente a maneira como acordava cedo. Ainda os galos estavam a avaliar se já era hora de serem galos e já ele andava de pé. E, logo a seguir, a chamar o meu avô para aprender a vida, que naquele lugar, era uma enxada, baldes e semeadoras.

Era uma terra enorme, seca em certos sítios, teimosa noutros. Mas, havia uma boa quantidade de milho que parecia crescer só para a contrariar e fazer a vontade ao meu tio. Ele, explicava tudo com paciência ao meu avô. Como lavrar. Como semear. Como gradar. Como olhar para uma espiga e perceber se ela estava boa, doente ou apenas desapontada.

O meu avô não percebia nada. Não por falta de inteligência ou de atenção. Por falta de interesse. São coisas diferentes, embora os adultos confundam muito.

Ele tinha outro plano. Queria um carro. E por isso aceitava aprender.

Não sabia que carro queria. Isso era um pormenor técnico. Queria um com volante, rodas, bancos, buzina. Um que lhe conferisse a dignidade que só um rapaz pobre imagina que vem incluída no preço. O carro não era transporte. Era uma declaração. Seria ele a dizer ao mundo: "Muito bem, já chega de andar a pé."

O problema era que, para comprar um carro precisava de dinheiro. E para ter dinheiro, segundo o pai e o tio, precisava de trabalhar. E para trabalhar, segundo a terra, precisava de gostar de milho e aprender.

*

Nos dias em que consegui fugir, ia para Lourenço Marques. Não era fugir, propiamente. Era deslocar-se estrategicamente para comprar algo necessário.

O tio perguntava:

— O quê?

— Coisas.

— Que coisas?

— Coisas que nos fazem falta.

O tio olhava para ele como quem via um burro a tentar preencher uma declaração fiscal, mas deixava-o ir. Ou porque também já tinha sido jovem ou, talvez, porque a enxada descansava melhor sem ele e havia mais do que fazer sem ela.

Foi numa dessas escapadas que encontrou a loja.

A loja não estava escondida. Isso é importante. Normalmente estas lojas aparecem em becos impossíveis, entre duas portas que não existiam ontem.

Nada disso. Estava numa rua normal. Tinha uma porta normal e uma montra como as outras, se uma pessoa aceitasse como normal uma montra com um trompete partido, três maracas viúvas e um cartaz a dizer:

INSTRUMENTOS * CONSERTOS AFINAÇÕES * ASSOPROESPIRROS

( PAGAMENTOS A COMBINAR )

Em Lourenço Marques, nessa altura, para um estabelecimento comercial normal, não era tão estranho como parece. Havia lojas que vendiam pneus usados, botões partidos, medicamentos sem receita e fotografias para documentos. Havia uma onde se podia comprar uma galinha e, se o dono estivesse bem-disposto, dava também um conselho matrimonial impossível de recusar. Portanto, uma loja que vendia assoproespirros estava dentro dos limites do comércio local.

O avô entrou.

— Porquê? — perguntava eu, quando era pequeno.

— Porque a porta estava aberta — dizia o meu avô.

— Mas tu querias um trompete?

— Não. Queria um carro. Já te tinha explicado.

— Então porque entraste numa loja de instrumentos?

— Porque as pessoas que querem carros também podem entrar em lojas de instrumentos. Para isso não há fiscais à porta.

E ficava por ali a explicação.

*

O dono chamava-se Mateus Nhamurre.

Ou, pelo menos, era esse o nome que estava escrito numa placa atrás do balcão, ao lado de um preçário onde quase nada tinha os preços indicados. O homem que estava atrás de um balcão com muitas gavetas, tossia com autoridade. E assim sabia-se que era o dono.

Mateus Nhamurre era magro, usava uma camisa clara e tinha um ar de quem nunca se espantava com nada porque já tinha visto coisas mais ou menos explicáveis do que a vida, o universo e tudo mais. Não era velho, mas também não era novo. Era daquela idade em que uma pessoa já começa a parecer uma instituição.

— Boa tarde — disse o meu avô.

— Ainda é cedo para saber — respondeu ele.

O avô teve vontade de sair a correr da loja. Mas estava calor, a loja tinha sombra e havia uma cadeira. Uma pessoa que encontra sombra e uma cadeira ao mesmo tempo, baixa muito os seus critérios de segurança.

A loja estava cheia de instrumentos. Havia guitarras, claro. Havia tambores. Havia um piano pequeno com uma etiqueta onde se lia "PIANO DE BENGUELA”, com um cartão que dizia “não insistir nas teclas pretas". Havia uma coisa com tubos, panos e uma pega, que podia ser instrumento ou equipamento médico, com uma etiqueta onde se lia “ASSOPROSPIRRO”, com um cartão que dizia “não usar se não tiver a certeza”. Havia uma bateria incompleta, com um papel preso ao bombo onde se lia “BATERIA PARA BATER”, com um cartão que dizia “não confundir com bateria de estar ".

Ele não perguntou. Já sabia que há perguntas que, quando feitas em voz alta, estragam os negócios. No fundo, pendurada na parede, estava a guitarra.

Não era bonita ou feia. Tinha a madeira riscada, o braço ligeiramente torto e uma das cordas parecia estar ali encaixada por favor e como muito esforço. Dava a sensação de ter sido afinada por um macaco, mas continuava a ter alma.

— Esta — disse ele.

Mateus Nhamurre nem olhou.

— Essa não.

— Porquê?

— Essa, é marada.

— Está avariada?

— Não. Se estivesse avariada era mais simples.

— Então?

— É marada.

Disse aquilo como um homem que já tinha desconstruído este diálogo muitas vezes.

— Eu nem sei tocar — disse o meu avô.

— Ah! Assim é melhor.

— Melhor?

— Esta guitarra não se recorda de notas separadas. Lembra-se de coisas inteiras. Os que sabem tocar baralham tudo.

Isto, segundo ele, fazia todo o sentido. Segundo qualquer outra pessoa, era motivo para sair da loja e ir procurar sobra e um copo de água noutra loja.

— Quanto custa?

Mateus Nhamurre abriu uma das gavetas. Tirou de lá uma caderneta, molhou o dedo na língua e folheou umas páginas.

— Depende da modalidade.

— Tenho pouco dinheiro.

— Então não recomendo a modalidade dinheiro.

— Há outra?

— Há sempre outra. O problema do mundo é esse.

Passou o dedo pela caderneta, encontrou uma linha que gostou e leu:

— Regime de acontecimento. Direito a um dente de ouro que ainda não tens.

— Mas não tenho nenhum dente de ouro.

— Por isso mesmo é que é fiado. Regime de acontecimento.

— E se eu nunca vier a ter?

Mateus Nhamurre fechou a caderneta.

— Nesse caso, paga a história. Ou o que dela vier.

— Que história?

— Esta.

— Mas ainda não aconteceu nada.

— Melhor. As histórias que já aconteceram vêm cheias de gente a corrigi-las.

O meu avô reproduzia esta fala com uma seriedade aborrecida, como quem explica que a chuva molha e que é normal a repartição de finanças estar fechada à hora de almoço.

— E tu aceitaste? — perguntava eu.

— Claro.

— Claro porquê?

— Porque era melhor do que pagar a pronto.

*

Foi assim que comprou a guitarra marada, com o direito a um dente de ouro que ainda não tinha. Mateus Nhamurre escreveu o acordo num papel, carimbou-o com um carimbo sem tinta e guardou-o numa gaveta onde, segundo o meu avô, estavam outros papéis parecidos.

— Parecidos como?

— Não vi. Não era da minha conta.

Antes de sair, Mateus Nhamurre disse-lhe duas coisas.

A primeira:

— Não a afines demasiado.

A segunda:

— Quando ela tocar mal, não é defeito. É opinião.

*

O meu avô levou a guitarra embrulhada num pano e voltou para casa do tio.

O tio viu-o chegar.

— O que é isso?

— Uma guitarra.

— Sabes tocar?

— Ainda não.

— Compraste uma guitarra sem saber tocar?

— Tecnicamente não comprei. Fiquei a dever um dente.

O tio ficou calado. Aceitou.

Há silêncios que são apenas silêncios. Aquele era um silêncio com a sabedoria de quem lida com máquinas agrícolas há muito tempo, mas que confia tanto na meteorologia como no acaso.

— Vai comer e vai dormir — disse ele.

E pronto. Era um homem muito sabido. Não fazia perguntas quando percebia que a resposta poderia ser pior.

*

Nos dias seguintes, o meu avô trabalhou de dia e tentou tocar à noite.

"Tentou" é uma palavra educada.

Segundo ele, a guitarra tinha um sistema muito próprio. Quando ele punha os dedos no sítio errado, ela fazia um som. Quando punha no sítio certo, fazia outro som, mas não necessariamente melhor. Às vezes parecia música. Às vezes parecia uma cadeira a pedir desculpa por ranger.

Mas havia uma coisa em que ele insistia ser a regra. Sempre que ele desistia a guitarra melhorava. Quando ele se esquecia que queria ser músico e ficava apenas ali, sentado a pensar no carro, a guitarra arranjava maneira de soar a qualquer coisa. Não muito. Apenas o suficiente.

— Então ela tocava sozinha?

— Não.

— Então eras tu? Aprendeste?

— Também não exageremos.

E era assim que ele explicava.

*

Conheceu o Pedro numa tarde em que estava a tocar mal junto a uma parede.

O Pedro apareceu com duas baquetas no bolso.

— Isso é uma guitarra?

— Em princípio. Foi o que eu pensei.

— Tocam?

— Quem?

— Tu e ela.

— Estamos em negociações. Ainda não estou certo de que sim.

O Pedro aceitou a explicação sem dificuldade. Era baterista, mas não tinha bateria. Segundo ele, isso era temporário desde que se recorda. Mas não era o problema.

— Uma bateria é uma questão de fé e eu acredito — dizia.

Depois apareceu o Jonas, que sabia três acordes e tinha a vantagem de os saber sem mudar a expressão facial, a mesma que apresentava para tudo na vida. Parecia que estava a começar uma revolução, empenhado, mesmo quando apenas procurava o sítio onde tinha deixado os cigarros.

A Cláudia apareceu por último. Cantava em francês, ou pelo menos parecia, até à terceira garrafa de cerveja. Quando o público era simpático, dizia que as canções eram da Edith Piaf. Quando o público era exigente, dizia que eram de uma compositora desconhecida, mas com futuro. Ninguém tinha vontade de a contradizer.

— Ela sabia francês? — perguntava eu.

— Não o suficiente para estragar a música.

E foi assim que a banda ficou feita.

Não houve nome, contrato, ensaios nem conversas sérias. Aconteceu. Há coisas que aparecem completas, como triângulos, dúzias ou más decisões.

*

Tocavam canções francesas, canções de amor e de rock and roll. Quando não sabiam a letra, inventavam. Quando não sabiam a música, aceleravam. Quando o público parecia desconfiado, a Cláudia cantava mais alto e o Jonas fazia um ar estrangeiro.

A guitarra marada tinha funções específicas. Disfarçava erros pequenos e erros médios em estilo. Quanto aos erros grandes, era o Pedro que os resolvia a fazer mais barulho. E foi assim que, segundo o meu avô, tocaram em quase todas as salas decentes de Lourenço Marques durante quatro meses. Pelo menos foi o que lhe pareceu.

— Quase todas as salas? De Lourenço Marques?

— Sim.

— Quantas eram?

— As suficientes, para nós e para quem nos ouviu.

— Mas eram muitas?

— Neto, tu estás muito preso à contabilidade.

Nunca esclareceu. Dizia que umas tinham palco e outras tinham uma espécie de palco. Uma tinha uma mesa que, depois de beber uns tricofaite ou catembes , podia ser considerada palco por gente aberta à arte e à cultura local.

Ganharam dinheiro. Não muito. O suficiente para comer, para deslocarem-se, para pagar uma ou outra dívida e, sobretudo, para o meu avô juntar para o carro.

Mateus Nhamurre apareceu em alguns dos concertos. Só nos que, segundo ele, "poderiam ter consequências". Sentava-se ao fundo, não batia palmas e no fim fazia comentários.

— Hoje a guitarra trabalhou acima da garantia.

Ou:

— Hoje tocaste pouco. Foi sensato. E foi melhor assim.

Ou ainda:

— Cuidado com a terceira corda. Está a desenvolver ideias.

O meu avô não perguntava nada. Aprendeu que Mateus Nhamurre respondia sempre, mas raramente à pergunta.

No último mês, a banda começou a ser conhecida. Nunca foi famosa. É diferente. Famoso é quando as pessoas sabem quem tu és. Conhecido é quando alguém na rua diz "olha, lá vai o rapaz da guitarra que toca para um lado sozinha e a banda vai pelo mesmo".

Para o meu avô, chegava.

*

Acabado o tempo em Lourenço Marques, o pai mandou-o chamar. O tio já o tinha ensinado a lavrar, semear, gradar. Também aprendeu sobre o destino, mas que essa parte do destino, diz que aprendeu noutro sítio.

Antes de voltar, foi à loja.

Mateus Nhamurre estava atrás do balcão. Normal.

— Venho despedir-me — disse o meu avô.

— Não é necessário.

— Não?

— Quem se despede é porque acha que manda na distância do mundo. Enquanto te lembrares a distância será sempre zero.

O meu avô ficou calado e esperou.

— A guitarra fica? — perguntou Mateus Nhamurre.

— Fica?

— Ou vai?

— Pensei que era minha.

Mateus Nhamurre abriu a caderneta.

— Tua não é bem o termo. Está em regime de acontecimento.

— Isso quer dizer o quê?

— Quer dizer que, possivelmente, já fez o que tinha a fazer.

O meu avô olhou para a guitarra. A guitarra não disse nada. O que, segundo ele, numa guitarra, é o normal. Ele contava com mais.

Deixou-a na loja, perguntou:

— Então e o dente?

Mateus Nhamurre fechou a caderneta.

— Ainda não tens!

— E quando eu o tiver?

— Logo se vê.

— Mas, eu vou embora. Não volto mais.

— Ah bom! Isso ajuda!

— Ajuda em quê?

— A história.

*

O meu avô voltou sem guitarra, mas com dinheiro suficiente para comprar um carro. Não um grande carro. Não um carro novo. Um que não era bonito, consensualmente. Tinha uma porta que fechava, um banco que cheirava a cão e uma buzina que parecia soltar insultos numa língua estrangeira. Mas andava. E, para o meu avô, andar era o essencial.

Nunca mais voltou a Lourenço Marques.

— Porquê? — perguntava eu.

— Porque não é preciso.

— Mas não querias ver a loja outra vez?

— Para quê? Já a vi.

— E o Mateus Nhamurre?

— Também.

— E a guitarra?

— Principalmente.

Ele dizia isto sem saudade. Como quem sabe que um comboio que chegou ao destino não olha para trás para agradecer aos carris.

*

Durante anos, achei que aquela história era uma boa mentira. Daquelas de família, que não fazem mal a ninguém e ajudam os domingos a passar.

Até que, já mais crescido, procurei. Talvez porque há uma idade em que uma pessoa começa a desconfiar que os velhos, mesmo quando mentem, podem estar a esconder alguma verdade mal embalada.

Procurei por "Mateus Nhamurre". Nada.

Procurei por "guitarra marada Lourenço Marques". Apareceram coisas que não interessavam, incluindo venda de amplificadores às peças.

Depois procurei por "Assoproespirro".

E encontrei.

Era uma página velha, dessas que parecem feitas por alguém que descobriu a internet e aposto tudo em gifs animados. Tinha fotografias antigas de ruas, lojas, anúncios, faturas, letreiros. Quase tudo mal digitalizado.

E lá estava uma fotografia.

Uma montra estreita. Uma porta verde. Um letreiro torto.

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ASSOPROESPIRROS E PAGAMENTOS A COMBINAR

Ampliei a imagem.

No fundo da montra havia uma guitarra pendurada.

Não dava para ver bem. Podia ser qualquer guitarra. Podia ser aquela. Podia não ser.

Por baixo da fotografia havia uma legenda:

Loja de Mateus Nhamurre, Lourenço Marques. Referida oralmente por músicos locais como ponto de encontro de pessoas com capacidades musicais referidas nos resultados. Conhecida por aceitar pagamentos invulgares.

Fiquei parado a olhar para aquilo. Uma coisa é um avô mentir, outra é a internet colaborar.

*

No domingo seguinte, perguntei-lhe.

— Avô.

— Hum?

— Encontrei a loja.

Ele não levantou logo os olhos. Estava a descascar uma laranja com um canivete, como se a laranja tivesse sido julgada, sentenciada, mas ele não quisesse executar a sentença daquela forma cruel.

— Que loja?

— A do Mateus Nhamurre.

Continuou a descascar.

— Ainda bem.

— Ainda bem?

— Se encontraste, é porque estava lá.

— Mas isso não prova nada.

Ele olhou para mim. Não com espanto. Com uma pena calma.

— Neto, tu tens de acreditar mais. Não por causa da magia. Por causa da lógica das coisas.

— Mas que lógica?

— O teu problema é quereres que as coisas façam sentido antes de acontecerem.

Depois meteu um gomo de laranja à boca e ficou a mastigar. Para ele, o assunto estava encerrado.

Mas, para mim, não.

— E o dente de ouro?

O meu avô parou, sorriu um segundo e continuou a comer.

— Isso já é outra história.

E, quando sorriu, pareceu-me ver, lá ao fundo da boca, uma coisa a brilhar. Mas também podia ser a luz da cozinha. Ou a lógica das coisas. Não fiquei a saber.


Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
16 de Agosto de 2026

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