
A minha sogra fazia magia no quintal
Durante anos, achei aquilo apenas uma excentricidade doméstica, como quem coleciona selos, doenças raras ou opiniões políticas absurdas. Havia poções em frascos de vidro, aparelhos com aspeto medieval, vestes ornamentadas com animais mortos e um cheiro constante a alecrim queimado, ferrugem húmida e galinha mal resolvida. No meio daquela feira renascentista do inferno, o que mais me perturbava nem era o resto. Era a parabólica ligada ao iPad e à rede elétrica. Isso, sim, parecia-me de uma falta de coerência ofensiva. Nunca achei nada daquilo normal, mas também nunca me incomodei muito. Passava-se no quintal, e eu desprezava esses acontecimentos como desprezava os gatos: com distância prudente e uma aversão silenciosa. Desde que fosse lá fora, tudo bem.
Certo dia, logo pela manhã, ouvi-a gritar de forma diferente.
— Finalmente, finalmente!
Pensei que tivesse descoberto como transformar cocó em ouro, mas não. Do espaço veio uma chaleira voadora e levou-me com ela deste planeta. A única coisa que ainda a ouvi dizer foi:
— Assim, a minha filha será mais feliz!
De todos os futuros que imaginei, em nenhum estaria a bordo de um ovni com a minha sogra aos comandos de uma chaleira rumo a outra galáxia.
Acordei numa divisão metálica, limpa demais para ser hospital, suja demais para ser paraíso. As paredes tinham aquele brilho opaco de eletrodoméstico caro e os cantos da sala pareciam desenhados por alguém que odiava ângulos retos. Havia tubos, luzes e um zumbido de fundo que me entrou logo no sistema nervoso como uma dívida. Eu ainda estava a tentar perceber se tinha morrido ou se me tinham posto numa cozinha futurista, quando um homem baixo, gordo e impecavelmente fardado apareceu diante de mim com um sorriso profissional.
— Sr., bem-vindo a bordo!
— A bordo do quê? — perguntei, com um ar sério, como se estivesse a controlar a conversa.
— A bordo do seu novo futuro. Esperamos todos que goste.
Foi então que a minha sogra entrou na divisão.
Já não vinha de saias escuras, avental e cheiro a rosmaninho queimado. Trazia um uniforme cinzento, severo, com insígnias discretas e um colarinho tão rígido que parecia impedir qualquer vestígio de humanidade de lhe subir à cara. Todos os presentes se puseram em sentido mal ela entrou, e eu tive a desagradável confirmação de que o pesadelo tinha hierarquia.
Ela olhou para a tripulação com a calma de quem tinha acabado de estacionar bem à primeira e começou a falar:
— Meus senhores, muito obrigada pela extração. A missão foi um sucesso. Tivemos êxito em duas gerações, duas sementes funcionais deixadas no berçário. Tudo como planeado.
Fez uma pequena pausa, olhou para mim e suspirou.
— Houve, no entanto, um pequeno problema. O pai biológico da segunda geração teve de ser resgatado comigo. E por isso heis aqui o espécime diante de vós.
O mais pequeno e gordo dos presentes que, naquele contexto, era dizer o bastante, não pediu licença para intervir. Avançou um passo, como se a curiosidade lhe tivesse rompido a disciplina.
— E qual é a explicação, comandante?
A minha sogra cruzou as mãos atrás das costas.
— Bem. Tratar-se-ia apenas de um bocado de carne gorda pouco inteligente, capaz de efetuar a fecundação e proteger o recetáculo durante o período de maturação. Contudo, é afinal mais do que isso. A criança afeiçoou-se a ele e, em vez de adotar os conceitos da fêmea reprodutora, começou a seguir os exemplos paternais. Intolerável.
Não gostei da expressão "bocado de carne gorda", embora reconhecesse nela um certo rigor zoológico. Também não gostei de perceber, pela forma como o disseram, que eu não estava ali por engano. Estava ali porque alguma coisa correra mal, ou bem demais.
O pequeno e gordo deu mais um passo em frente, alisou a frente do uniforme com a solenidade de quem vai anunciar o fim do mundo ou a sobremesa, e olhou para mim com um misto de pena e curiosidade científica.
— Comandante, se me permite, talvez o defeito não esteja no espécime. Talvez esteja no protocolo. A ligação da criança à figura paterna ultrapassou o previsto, sim, mas isso não invalida a colheita. Pelo contrário. Pode significar que a segunda geração desenvolveu capacidades que a nossa linhagem perdeu há séculos.
A minha sogra virou-se para ele devagar, como quem escolhe entre fuzilar alguém ou corrigi-lo com uma colher de pau. Pela primeira vez desde que entrei naquela chaleira cósmica, vi-lhe qualquer coisa parecida com hesitação. Não era bondade. A minha sogra nunca teve cara de ter bondade, nem quando oferecia sopa. Era outra coisa. Medo, talvez. Medo de que aquele homenzinho gordo tivesse acabado de dizer em voz alta o que ela andara anos a esconder de si própria.
Foi então que, do fundo metálico da nave, ouvi um choro curto, abafado, quase irritado.
Não reconheci logo o som por ser pai. Reconheci-o por ser culpa.
A minha filha estava ali.
— Quero falar com ela a sós — disse eu, antes que me lembrasse de ter medo.
Houve um silêncio tão espesso que até as luzes da cabine pareceram envergonhadas. Alguns dos uniformizados trocaram olhares de pânico administrativo, como se eu tivesse pedido para rever a folha de despesas da missão. A minha sogra aproximou-se até ficar a meio palmo da minha cara e sorriu daquele sorriso seco com que, na Terra, anunciava sempre que o bacalhau tinha ficado intragável, mas todos iam comer na mesma.
— Ainda não percebeu, pois não? — murmurou ela. — Você não veio cá por acidente. Foi trazido porque a criança não largava a sua imagem nos testes de projeção. A sua voz. O seu cheiro. A sua presença. E isso, para nós, é uma anomalia grave.
Olhou de relance para a porta ao fundo, de onde o choro já se transformava numa inquietação intermitente, e acrescentou, num tom quase cansado:
— O problema, genro, não é que seja inútil. O problema é que talvez seja irrepetível.
O silêncio depois daquelas palavras foi tão absoluto que ouvi o zumbido das luzes da nave. Depois ouvi os meus próprios batimentos cardíacos, o que é sempre mau sinal.
— Irrepetível — repeti, devagar, como quem prova veneno antes de o beber. — Então a criança não é o defeito. Eu é que sou o acidente valioso.
O pequeno e gordo abriu um sorriso que não chegou aos olhos.
— O espécime começa a compreender. Maravilhoso.
A minha sogra não sorriu. Continuava a olhar para mim com aquela expressão de quem está a fazer contas de cabeça e não gosta do resultado.
— Não confunda lucidez com inteligência — atalhou ela, seca. — Você é um desvio estatístico. Nada mais. A criança desenvolveu uma dependência emocional fora do previsto. Isso compromete a pureza da amostra.
— A pureza — murmurei. — Como a pureza das ervas que cortava no quintal. Como a pureza das vestes de animais mortos. Tudo muito puro, tudo muito limpo. Até que aparece uma chaleira voadora e vem buscar o pai porque a criança chora na escuridão.
Desta vez, foi ela que hesitou. Apenas um segundo. Mas o suficiente.
O pequeno e gordo pigarreou.
— Comandante, o espécime levanta um ponto metodológico relevante. Se a ligação paterna é tão intensa a ponto de interferir com os testes de projeção, talvez devêssemos reconsiderar o protocolo de descarte. A literatura da nossa própria espécie, volume treze, parágrafo nono, recomenda...
— Cale-se, doutor — disse a minha sogra.
— ...recomenda o estudo aprofundado de anomalias afetivas antes da neutralização, concluiu ele, impávido.
Era agora. O momento em que eu podia recuar para o medo ou avançar para a única arma que tinha: a conversa.
— A senhora disse que eu fui trazido porque a criança não larga a minha imagem — comecei mantendo a voz tão baixa que todos tiveram de se inclinar para ouvir. — Disse que a minha voz, o meu cheiro e a minha presença são uma anomalia grave. Pois bem. Eu proponho uma troca.
A minha sogra arqueou uma sobrancelha. O pequeno e gordo tirou um bloco de notas do bolso do uniforme.
— Deixe-me adivinhar — disse ela, com desdém. — Quer a criança. Quer voltar para a Terra. Quer escrever um livro sobre esta experiência e ficar rico.
— Não — respondi. — Quero que me mostre o que realmente faz. Quero ver o berçário. Quero ver as outras crianças. Quero saber quantas delas choram por pais que foram descartados como "bocados de carne gorda".
O silêncio que se seguiu foi de outra qualidade. Não era hesitação. Era terror.
A minha sogra empalideceu. O pequeno e gordo deixou cair o bloco de notas. Alguém, ao fundo, desligou qualquer coisa com um clique seco.
— Isso — sussurrou o doutor, quase para si mesmo — já não está no protocolo.
— Você não tem autoridade para pedir isso — disse a minha sogra, mas a voz tremeu. Pela primeira vez, a voz tremeu.
— Então mate-me — respondi, encolhendo os ombros. — Ou mate a criança. Ou continue a fingir que eu sou apenas um erro de cálculo. Mas a senhora sabe que não sou. O doutor sabe que não sou. E pior para a senhora: a criança sabe que não sou.
Apontei para a porta ao fundo, onde o choro já tinha dado lugar a uma quietude assustada.
— A minha filha não chama por si. Não chama pela sua frota interestelar. Não chama pelos seus protocolos puros nem pelas suas colheitas programadas. Chama por mim. Um bocado de carne gorda. Um pai. E isso, comandante, é mais irrepetível do que qualquer mutação genética.
Ela ficou imóvel. Depois, muito devagar, levou a mão ao coldre.
O doutor deu um passo à frente.
— Comandante — disse ele, com uma calma que roçava a loucura — se o matar agora, nunca saberemos porquê. E a ciência, comandante, não sobrevive a "porquês" sem resposta.
Ela não respondeu. Mas o dedo, pousado sobre o coldre, não se moveu.
Foi então que a porta do fundo se abriu.
Ninguém a abriu. Simplesmente cedeu, como se tivesse sido forçada por dentro por uma mão invisível ou por uma vontade demasiado nova para conhecer regras.
E no vão da porta, com o pijama azul vestido ao contrário e os olhos inchados de choro, estava a minha filha.
— Pai — disse ela.
Não gritou. Não correu. Disse apenas, como quem confirma que a gravidade ainda funciona.
— Pai, tens de vir ver o que eu aprendi a fazer.
A minha sogra tirou a mão do coldre. Não por bondade. Porque a arma, de repente, pareceu-lhe um objeto ridículo, inútil, de outro século.
A minha filha abriu a mão direita. Na palma, perfeitamente dobrada em quatro, estava uma fatura da EDP.
— Consigo fazer aparecer. De qualquer lado. Quantas eu quiser.
Houve um silêncio na cabine que nem o zumbido das luzes se atreveu a interromper. O doutor baixou-se devagar, apanhou a fatura do chão onde ela a deixara cair, e leu. Releu. Tirou os óculos, limpou-os à farda, voltou a pô-los.
— Comandante — disse ele, com a voz de quem assiste ao fim de uma civilização — isto está em nome dela.
— Em nome de quem?
— Da criança. Morada em Aveiro. Consumo do mês passado. Quarenta e sete euros e trinta e dois cêntimos.
A minha sogra aproximou-se da fatura como se fosse uma bomba por desarmar. Leu. Releu, como o doutor. Voltou a ler. E depois, muito baixinho, quase sem dar por isso, disse uma coisa que nunca na vida lhe tinha ouvido dizer:
— Não pode ser.
A minha filha olhou para mim, à espera de instruções, com aquele ar de quem acabou de fazer uma asneira ou uma obra-prima e precisa que um adulto lhe diga qual das duas foi. Encolhi os ombros. Sorri. Ela sorriu de volta, e abriu a outra mão.
Na palma esquerda, perfeitamente dobrada em quatro, estava a fatura da água.
O doutor emitiu um som que não era bem humano. Uma espécie de soluço técnico.
— Comandante — balbuciou ele — a criança está a materializar documentos administrativos portugueses. Isto é.… isto não consta em nenhum manual. Em nenhum. Nem sequer no volume vinte e sete, onde se descrevem as aberrações.
A minha sogra não respondeu. Tinha aberto a fatura da água e estava a ler os consumos trimestrais como quem procura uma resposta teológica num recibo.
— Pai — disse a minha filha, puxando-me pela manga — mas isto não é tudo. Anda. Anda ver.
Segui-a pelo corredor metálico, com a minha sogra e o doutor atrás de nós, a certa distância, como dois cientistas que já não sabiam se estavam a observar uma experiência ou a assistir a um funeral. O corredor estreitou. As luzes tornaram-se mais quentes. E, ao fundo, havia uma porta pequena, de aspeto doméstico, com uma maçaneta vulgar, como se alguém tivesse arrancado a porta da despensa de uma casa de Aveiro e a tivesse encaixado ali, no meio da nave, sem pedir licença.
A minha filha abriu a porta.
Lá dentro havia apenas uma mesa, uma cadeira, e, em cima da mesa, uma panela.
— Abre — disse ela.
Abri.
Lá dentro, a ferver sem lume, estava uma sopa de couve perfeita. Perfeita no sentido técnico: o caldo tinha a consistência exata, a couve estava cortada à mão como a minha mãe cortava, e havia um fio de azeite à superfície a desenhar, muito lentamente, a palavra pai.
Fiquei um bocado de tempo a olhar para aquilo. Não por espanto. Por reconhecimento. Era a sopa da minha mãe. A minha mãe que tinha morrido quando a minha filha ainda nem sabia andar. A minha filha nunca tinha provado aquela sopa. Nunca. E, no entanto, ali estava ela, a ferver sem lume, com o azeite a escrever a minha identidade à superfície.
Atrás de mim, ouvi o doutor sussurrar:
— Comandante, isto não é telecinesia. Isto é memória afetiva manifestada em matéria orgânica. Nunca foi documentado em lado nenhum do universo conhecido. A criança está a puxar objetos não de onde eles estão, mas de onde eles foram.
A minha sogra apareceu à porta. Olhou para a panela. Olhou para a filha. Olhou para mim. E depois fez uma coisa que me desorganizou mais do que toda a viagem espacial.
Cheirou.
Fechou os olhos, inclinou-se muito ligeiramente sobre a panela, e cheirou. E eu vi, na cara dela, uma coisa que nunca tinha visto em vinte e sete anos: vi-a pequena. Vi a rapariga que ela tinha sido antes de se tornar naquilo. Vi a filha que ela própria foi, um dia, a alguém.
— Esta sopa — disse ela, e a voz saiu-lhe rouca, quase irritada consigo própria — esta sopa não é da mãe dele.
Virei-me para ela.
— Como?
— Esta sopa — repetiu, sem abrir os olhos — é da minha mãe. Era assim que ela cortava a couve. Era assim que ela punha o azeite.
Ficámos os três em silêncio. A minha filha, eu, e aquela mulher que tinha organizado uma missão interestelar para me apagar da equação e que agora estava a meio palmo de uma panela a cheirar a infância.
O doutor tirou uma caneta do bolso. Abriu um pequeno caderno. Começou a escrever. Depois parou. Fechou o caderno. Voltou a guardá-lo. Olhou para mim com uma expressão que era, pela primeira vez desde que eu o conhecera, inteiramente humana.
— Eu não sei o que é que a criança fez — disse ele. — Mas sei o que desfez.
A minha sogra abriu os olhos. Estavam molhados. Não chorava. Mas estavam molhados, e na cara de alguém como ela isso era praticamente uma tempestade.
— Não — murmurou. — Não me faças isto.
Ela não falava comigo. Nem com o doutor. Falava com a neta.
— Não me faças isto agora. Depois de tudo o que eu organizei. Depois de todos os protocolos, de todas as colheitas, de todas as gerações. Não me faças lembrar.
A minha filha subiu para a cadeira, pegou na panela com as duas mãos, e estendeu-a à avó.
— Come — disse ela. — Está boa.
E a minha sogra, comandante de uma frota interestelar, executora de duas gerações de colheitas puras, mulher que tinha transformado um quintal em Aveiro numa base avançada de extração genética, agarrou na panela como quem agarra num filho, e comeu a sopa com as mãos.
Comeu a chorar. Não muito. O suficiente.
O doutor saiu da divisão em silêncio. Ouvi-o, no corredor, dar uma ordem a alguém. Ouvi as luzes mudarem de tom. Ouvi qualquer coisa na nave desligar-se, como se um motor muito antigo finalmente tivesse permissão para descansar.
A minha filha olhou para mim.
— Pai — disse ela — podemos ir agora?
Não sei como voltámos. Nunca mais quis perguntar. Só sei que, quando acordei, estava deitado no sofá da sala, com ela em cima de mim a dormir, e, na cozinha, a minha sogra estava a fazer sopa. Nada disso era novidade. Era um domingo como todos os outros domingos.
Mas agora, quando ela me põe a sopa à frente, já não olha por cima do prato. Olha-me nos olhos.
E eu, como um bom bocado de carne gorda, como em silêncio. E deixo-a olhar.
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