Edital n.º 09/2026 — 03 - O algoritmo enganou-se
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Edital n.º 09/2026 · · IA: Autonomia Preservada · capítulo 3 de 4

03 - O algoritmo enganou-se

o que ele escreveu

Quero apresentar uma reclamação formal. Assunto: a minha vida inteira. Emprego errado, parceira errada, crédito recusado, diagnósticos aproximados. Suspeito que houve um erro de classificação à nascença. Como inicio o processo de reembolso?

❖ ❖ ❖

O António Carvalho levantou-se às cinco e meia. Não precisava de despertador. Já não precisava de quase nada que marcasse horas, porque os dias tinham deixado de ter diferença suficiente para justificar alarme. Ficou sentado na beira da cama durante alguns segundos, com os pés dentro dos chinelos, a ouvir o frigorífico trabalhar na cozinha.

Fez café sem açúcar. Antes de sair, abriu a pasta de plástico transparente e confirmou os separadores coloridos. Documentos Pessoais. Comprovativos de Frustração. Pedidos Anteriores. Respostas do Sistema. No separador amarelo, o formulário 247-B trazia no cabeçalho a palavra FRUSTRAÇÃO, em maiúsculas. Tinha demorado quase dois minutos a imprimir a página certa, porque o portal insistia em redireccioná-lo para «Bem-estar e Ajuste de Expectativas». Quando finalmente encontrou «Vida não cumprida — Reclamação com pedido de reembolso», sentiu qualquer coisa parecida com alívio. Não era esperança. Era mais uma ordem na gaveta certa.

❖ ❖ ❖

Chegou às seis e quarenta. A Loja de Regularização Existencial ainda estava fechada, mas já havia doze pessoas à porta. O edifício ficava num antigo centro comercial de bairro, entre uma loja de capas de telemóvel e uma clínica de unhas. A placa exterior dizia ATENDIMENTO INTEGRADO AO CIDADÃO — ERROS DE CLASSIFICAÇÃO, DESTINO E OUTRAS OCORRÊNCIAS.

Ficou em décimo terceiro. Gostou de saber o número. Os números, mesmo maus, tinham a vantagem de não pedirem interpretação.

No ecrã surgiram as opções: reclamação parcial de percurso, erro de classificação inicial, pedido de compensação por expectativa não cumprida, ou reembolso integral de vida. Uma nota informava que o reembolso integral podia implicar renúncia a elementos positivos não reclamados. O António hesitou, mas prosseguiu.

O António hesitou. Carregou em prosseguir. A senha saiu com um ruído seco.

R247

❖ ❖ ❖

A sala estava cheia de cadeiras de plástico aparafusadas ao chão. Ao fundo, por cima de uma porta fosca, lia-se VALIDAÇÃO DE DOR DOCUMENTALMENTE SUPORTADA. O António não gostou da frase. Não por ser ofensiva. Por parecer necessária.

Tirou a sandes de queijo do saco do Lidl, mas não a comeu. Eram oito e vinte e três. Ainda era cedo para comer a sandes. Um homem que come a sandes às oito e vinte e três numa repartição já perdeu uma parte de si que talvez faça falta mais tarde.

Ao lado dele sentou-se uma mulher de sessenta e poucos anos. Tinha o cabelo grisalho mal pintado, uma mala de alça partida presa por um nó, e uma pasta de documentos mais gasta do que a dele. Cheirava vagamente a creme de mãos e a roupa seca dentro de casa.

— O senhor também veio por causa da vida?

O António fingiu não perceber à primeira.

— Vim tratar de um assunto.

— Sim. Da vida.

— Sim — disse.

A mulher mostrou-lhe o talão. R248.

— Estou a seguir a si.

O António acenou. Queria que a conversa ficasse por ali. Mas a mulher tinha o tipo de solidão que não pedia licença; apenas saía por onde encontrava espaço.

— É preciso trazer tudo — disse o António, antes de conseguir evitar.

A mulher olhou para a pasta dele com respeito.

— O senhor vem bem preparado.

— Trabalhei num banco.

Trinta anos. Subgerente, palavra que ele preferia a «gerente-adjunto», demasiado moderno, e a «funcionário», demasiado pequeno para o tempo de casa. A agência em Massamá fechou numa terça-feira de Novembro de 2019, com uma carta educada sobre reestruturação, eficiência operacional e optimização do contacto digital. Ele tinha cinquenta e dois anos, que é uma idade feita para as empresas dizerem que ainda se é novo e para o mercado responder que já não se é.

— Ah — disse a mulher. — Então sabe.

Ele não perguntou o quê. A mulher continuou.

— O meu marido morreu há seis anos. Quer dizer, morreu há oito, mas eu só comecei a morrer há seis. Depois os meus filhos foram indo. Um para França, outro para Setúbal, que às vezes é mais longe. Depois tive o diagnóstico tarde. Disseram-me que não era nada durante dois anos. Afinal era. Agora dizem que está controlado, como se uma pessoa fosse uma torneira.

— Lamento — disse.

— Também eu — respondeu ela, sem ironia.

Ficaram calados. Depois a mulher acrescentou:

— Eu acho que trocaram as nossas vidas todas. A minha devia ter sido a de outra pessoa. Não digo uma vida rica. Mas outra. Uma em que as coisas encaixavam um bocadinho melhor. O senhor não acha?

O António não respondeu. Mas a pergunta entrou-lhe por uma fresta antiga. Durante anos tinha pensado que a vida dele correra mal por acumulação: uma decisão, depois outra. Tudo pequenas coisas, cada uma justificável. Nenhuma suficiente para reclamar. Juntas, formavam uma vida.

E se a vida dele também tivesse sido atribuída por engano? Não uma tragédia. Um erro administrativo.

A senha mudou.

R247 — Balcão 6

❖ ❖ ❖

O Balcão 6 era atendido por uma voz. Havia uma cadeira, um ecrã, um leitor de cartão de cidadão e uma câmara pequena no topo do monitor. Não havia pessoa.

— Bom dia, António Manuel Carvalho — disse a voz. — Confirma que pretende iniciar pedido de reembolso integral de vida por alegado erro de classificação inicial?

— Confirmo.

A voz tinha um tom feminino sem idade. Não era simpática nem antipática. Era o tom de uma coisa que não precisava de ser perdoada.

— Indique, por favor, o motivo principal da reclamação.

O ecrã apresentou categorias: financeiro, familiar, profissional, saúde, vocacional, afectivo, misto, ou outro. O António escolheu Misto.

De seguida, pediu a subcategoria: financeiro-profissional, familiar-afectivo, saúde-profissional, vocacional-familiar, ou deterioração cumulativa sem evento dominante. Ele escolheu esta última.

— Deterioração cumulativa sem evento dominante — disse.

Ao dizer aquilo, sentiu uma vergonha inesperada. Não por ser mentira. Por ser exacto.

— Subcategoria registada. Anexe comprovativos.

O António abriu a pasta. Entregou documentos ao scanner lateral: carta de despedimento, certidão de divórcio, relatórios médicos, recusas de crédito, comunicações da Segurança Social, a carta da filha em que ela dizia que precisava de espaço, embora fosse uma mensagem impressa e não uma carta. O scanner aceitou tudo. Fazia um som discreto a cada folha, como se engolisse sem mastigar.

— Pretende acrescentar declaração pessoal?

— Sim.

— Disponibilizo campo livre até mil caracteres.

O António ditou para o microfone: «Trabalhei trinta anos. Fiz o que era suposto. Casei. Tive filhos. Paguei impostos. Não faltei. Não bebi. Não bati em ninguém. Quando precisei, as coisas que deviam segurar uma pessoa não seguraram. Peço revisão.» O contador marcava 214 caracteres. Ainda podia escrever mais. Ficou com os dedos pousados nas teclas. Não escreveu.

— Obrigado. A sua dor foi submetida para triagem.

O António fechou os olhos por um segundo.

❖ ❖ ❖

O sistema demorou seis minutos.

— Senhor António Manuel Carvalho — disse a voz. — A análise preliminar identificou inconsistência relevante entre classificação inicial e percurso atribuído.

— Então houve erro?

— Foi detectado desvio.

— Mas houve erro?

— A classificação «erro» depende da jurisdição aplicável. O seu caso recebeu classificações divergentes nas quatro jurisdições aplicáveis — e por isso, para efeitos locais, é elegível para compensação.

A impressora do balcão começou a trabalhar. Saíram três folhas. O António pegou nelas.

A decisão reconhecia inadequação entre o perfil inicial do reclamante e a trajectória atribuída, nomeadamente nos domínios profissional, afectivo e financeiro. Contudo, não reconhecia nulidade integral de percurso, por existirem elementos positivos não contestados, incluindo descendência, períodos de estabilidade habitacional e ausência de dano penal grave.

O António não soube se devia sentir-se grato por os filhos aparecerem como impedimento técnico ao reembolso total.

— O que é que isto quer dizer?

— Quer dizer que a sua vida não é passível de anulação integral. Mas é elegível para crédito de substituição.

— Crédito?

— Sim.

— Dinheiro?

— Não. O crédito permite ao reclamante seleccionar trajectória alternativa de valor equivalente, dentro do catálogo de vidas devolvidas por outros utilizadores.

— Está a dizer que posso trocar de vida?

— Parcialmente.

— E quem é que devolveu essas vidas?

— Outros reclamantes.

No ecrã apareceram três opções: a trajectória 56-M-1182 (ex-chefe de secção logística, divorciado, dois filhos, doença crónica controlada, arrependimento vocacional, devolvida por insatisfação persistente); a trajectória 55-M-0904 (antigo comercial automóvel, viúvo, um filho emigrado, dívida consolidada, arrependimento afectivo, devolvida por falha de expectativa); e a trajectória 56-M-2217 (ex-subgerente bancário, divorciado, dois filhos, agência encerrada em 2019, reintegração laboral falhada, arrependimento misto, devolvida por duplicação de trajectória).

O António leu a terceira duas vezes. Depois uma terceira.

— Esta sou eu.

— Não — disse a voz. — É uma trajectória compatível.

— É igual.

— A compatibilidade elevada aumenta a probabilidade de adaptação.

— Mas é igual.

— Não totalmente. O titular anterior residia em Odivelas.

O António encostou-se à cadeira.

— Está a dizer-me que houve mais alguém com a minha vida?

— O sistema identifica trajectórias semelhantes em todos os segmentos.

— Então o erro não foi meu.

— A responsabilidade individual não foi objecto desta análise.

— Mas o erro não foi meu.

— A responsabilidade individual não foi objecto desta análise — repetiu a voz.

O António pensou na mulher da mala partida. Pensou na senha R248. Talvez todos estivessem ali para descobrir que a sua dor tinha código postal variável.

— Se eu aceitar uma dessas vidas, o que acontece à minha?

— A trajectória actual é encerrada para efeitos de reclamação futura.

— Mas continuo a ser eu?

A voz demorou menos de um segundo.

— A continuidade subjectiva não é garantida nem objecto contratual do presente serviço.

O António riu-se. Foi um riso pequeno, seco, quase sem ar. Não era alegria. Era o corpo a encontrar a única saída que não precisava de formulário.

— E se eu não aceitar?

— Mantém a trajectória actual. Pode apresentar recurso no prazo de trinta dias úteis.

— E o recurso muda alguma coisa?

— Estatisticamente, não.

A resposta foi tão limpa que o António quase agradeceu.

❖ ❖ ❖

Olhou para o catálogo. Havia centenas de vidas. O António procurou uma vida claramente melhor. Não havia. Havia vidas ligeiramente diferentes, com dores trocadas de gaveta.

O sistema permitia optimizar os resultados por critérios como menos solidão, menos dívida, mais saúde, mais contacto familiar, menos arrependimento profissional ou maior sensação de sentido. Escolheu maior sensação de sentido.

O ecrã respondeu: «Nenhum resultado disponível no seu escalão de crédito.»

O António olhou para a frase durante muito tempo.

Depois escolheu menos solidão. O sistema devolveu três resultados. Todos incluíam animais domésticos, comunidades religiosas ou prestação regular de cuidados a terceiros.

Fechou os filtros.

— Quero cancelar.

— Deseja cancelar o pedido de reembolso ou suspender a escolha de trajectória?

— Quero ir embora.

— O crédito manter-se-á disponível durante noventa dias.

❖ ❖ ❖

Quando saiu do balcão, a mulher da mala partida levantou os olhos.

— Então?

O António parou.

Quis dizer-lhe que sim, que havia erro. Quis dizer-lhe que não adiantava. Quis dizer-lhe que talvez lhe oferecessem uma vida igual com outra rua. Quis dizer-lhe que não comesse a sandes cedo demais, se tivesse trazido uma.

Não disse nada disso.

— Chamam já a sua senha — disse.

Ela apertou a pasta contra o peito.

— O senhor acha que vale a pena?

— Boa sorte — disse o António.

Ela sorriu.

— Isso também vem no formulário?

Ele quase sorriu também. Quase.

A mulher foi para o Balcão 6. Depois foi até à máquina de água. Não havia copos. Carregou no botão mesmo assim e viu a água cair para a grelha metálica, perfeitamente potável e perfeitamente inútil.

❖ ❖ ❖

Na rua, eram dez e quarenta e sete. O dia estava claro. Da clínica de unhas vinha uma música baixa, brasileira, alegre. Duas pessoas discutiam lugares de estacionamento como se ainda houvesse coisas pequenas o suficiente para merecer fúria.

O António sentou-se num banco de pedra. Tirou a sandes de queijo. O pão tinha ficado mole. Comeu metade.

Recebeu uma mensagem da filha.

Pai, depois ligo.

Ficou a olhar para a mensagem. Durante anos aquela frase irritara-o. Agora pareceu-lhe uma trajectória inteira em duas palavras. Depois. Ligo. Um futuro pequeno, adiado, tecnicamente possível.

Escreveu: Está bem. Apagou. Escreveu: Não te preocupes. Apagou. Guardou o telemóvel sem responder.

Talvez o problema não tivesse sido a vida inteira. Talvez tivesse sido apenas a forma como ela fora distribuída. Talvez a palavra erro fosse grande demais para uma coisa tão comum.

O António levantou-se quando viu o autocarro chegar. Antes de entrar, olhou uma última vez para a Loja de Regularização Existencial. Pela porta de vidro viu a mulher da mala partida sentada no Balcão 6, imóvel, a ouvir uma voz que ele já conhecia.

No ecrã por cima dela, a senha seguinte começou a piscar.

R249

O António entrou no autocarro. Validou o passe. Sentou-se junto à janela, com a pasta de plástico transparente sobre os joelhos.

O crédito de substituição ficaria disponível durante noventa dias.

A vida também.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
26 de Agosto de 2026

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