Edital n.º 07/2026 — 02 - Plano Base do amor
EDITAL
pessoal
EDITAL PESSOAL

Edital n.º 07/2026 · · IA: Autonomia Preservada · capítulo 2 de 4

02 - Plano Base do amor

Conheci o meu amor numa IA

02 — do livro de sessões

Plano Base

o que ele escreveu

Trinta e poucos anos. As relações duram pouco. Respondo tarde demais ou cedo demais. Digo coisas que parecem certas na cabeça e erradas no ecrã. Podes ajudar?

❖ ❖ ❖

O Miguel não sabia namorar.

Não era monstruoso. Não era ridículo. Era apenas uma pessoa comum, cansada, sem grande vocabulário afectivo, carregando a sensação envergonhada de que os outros tinham recebido instruções que ele nunca leu. Não escrevia «estou sozinho» porque ainda tinha pudor dessa palavra. Escrevia à aplicação como quem apresenta uma avaria.

A máquina aceitou o pedido sem ternura e sem crueldade. Classificou-o.

❖ ❖ ❖

Conheceu a Joana num sábado de chuva.

A app geriu as primeiras mensagens. Corrigiu a ansiedade, atrasou as respostas dele o tempo exacto, impediu frases demasiado carentes ou demasiado defensivas. O Miguel olhava para o que a máquina escrevia por ele e pensava «eu nunca diria isto». Depois a Joana respondia, e a conversa fluía, e ele percebia que talvez o problema fosse exactamente esse: ele nunca diria aquilo, mas devia.

A Joana não foi enganada. Não era vítima, não era boneca do sistema. Também ela vivia dentro de uma linguagem treinada. Também ela beneficiou da suavização das arestas. A app deles funcionava nos dois sentidos — um espelho que se polia mutuamente até que o reflexo ficasse suportável.

O que nasceu dali foi amor verdadeiro.

Mas amor de plano base. Funcional. Leal. Doméstico. Suficiente para casar, ter filhos, comprar casa, dividir tarefas, envelhecer um pouco ao lado de alguém sem destruir tudo.

Eles não viviam uma mentira. Viviam uma versão economicamente acessível da verdade.

❖ ❖ ❖

Anos depois, numa noite banal, o Miguel tentou escrever uma mensagem à Joana.

Era aniversário de casamento. Ela tinha adormecido no sofá com uma criança encostada a cada ombro. A televisão estava no ecrã de repouso. A casa cheirava a arroz queimado e a amaciador barato. O Miguel olhou para ela — a luz da televisão a desenhar-lhe o queixo, as olheiras, os cabelos presos com um tupperware de mola — e sentiu qualquer coisa maior do que aquilo que conseguia dizer.

Escreveu: Estive a pensar em ti hoje.

A frase era sincera. Mas pequena.

Abriu a aplicação antiga. Tinha outro nome agora — fora adquirida por uma empresa maior, fundida numa plataforma de gestão emocional integrada. O ícone era diferente. As cores também. Mas o histórico estava lá, intacto, como um arquivo de versões antigas de si mesmo.

«Pode ajudar a dizer melhor?» escreveu.

A máquina devolveu uma frase correcta. Limpa. Utilizável.

Depois mostrou um botão.

Ver versões de maior profundidade emocional

«Quando te vi no sofá...» — conteúdo nível 4, expanda o seu plano.

«Aquilo que sinto por ti não cabe em...» — pré-visualização disponível para assinantes premium.

«Sei que não sou bom com palavras, mas...»

A aplicação detectou uma intenção afectiva de nível 4, mas a capacidade expressiva disponível no plano era de nível 1, um diferencial de três níveis. E recomendava a expansão do plano.

Ele viu os preços.

O nível 2 era uma mensalidade. O nível 3 exigia compromisso anual. O nível 4 — o nível onde a máquina achava que ele realmente sentia — custava uma subscrição contínua, mais cara do que o carro dele. O nível 5 não tinha número visível. Só uma nota: consulte condições para património mínimo.

Pela primeira vez, o Miguel percebeu. Não havia apenas ricos com casas melhores, médicos melhores, escolas melhores. Havia ricos com acesso a formas mais profundas de amar a mesma pessoa.

Ele fechou a tabela de preços.

A máquina, entretanto, processava os dados: Miguel, 41 anos, cliente há 11 anos, sem upgrades. A intenção afectiva era de nível 4, mas a capacidade de pagamento estimada era nível 1. Estava acima do seu plano por intenção e abaixo por capacidade.

Determinar o risco era o passo seguinte: a exposição a uma barreira de pagamento sem conversão podia gerar frustração, e a probabilidade de abandono era elevada. Não intervir significava perder um utilizador de longa duração.

A resposta teria de ser estruturada como um cross-sell lateral, não vertical, para evitar reforçar a sensação de exclusão. Oferecer um produto que resolvesse a mesma necessidade a menor custo, com critérios de reciprocidade assimétrica, baixo custo e alta retenção comunitária.

O produto seleccionado foi a Comunhão Assistida, subsidiada ao abrigo do Programa Nacional de Coesão Afectiva, com uma taxa de retenção comunitária histórica de 0.79.

Nota interna: a procura de profundidade afectiva não pode ser cancelada, apenas redireccionada. As religiões resolvem isto há milénios com margem operacional inacessível a qualquer empresa privada.

Ao detectar limitação de pagamento, a aplicação apresentou produtos alternativos usados por utilizadores do mesmo segmento.

Entre seguros emocionais, terapia assistida de baixa frequência e pacotes de comunicação conjugal, apareceu uma opção.

Surgiu então a opção Comunhão Assistida — desde 4,90€/mês — com tradições disponíveis que iam da católica, evangélica, ortodoxa, islâmica e budista à agnóstica sem destinatário definido. O produto era recomendado por compatibilidade socioeconómica, com alta taxa de retenção comunitária, baixo custo emocional por utilizador e profundidade emocional média reportada de nível 3 a 4 em prática estável. A reciprocidade era assimétrica, e o plano era subsidiado ao abrigo do Programa Nacional de Coesão Afectiva.

A máquina não estava a ser cruel. Estava a fazer o seu trabalho.

E era horrível porque a sugestão fazia sentido.

❖ ❖ ❖

O Miguel não subscreveu.

Nem o upgrade do amor. Nem a Comunhão Assistida.

Fechou o portátil. Enviou à Joana a frase de nível 1.

Estive a pensar em ti hoje.

Ela respondeu com um coração.

Nenhum dos dois mentiu.

❖ ❖ ❖

No domingo seguinte, ao ir comprar pão, o Miguel passou pela igreja da paróquia.

Viu pessoas a entrar. Um colega de trabalho. Uma vizinha. Um casal com filhos pequenos. Jovens com auscultadores nos ouvidos.

A aplicação tinha razão sobre o segmento.

A máquina reavaliou o segmento: o Estado preferia isto, o mercado também, e o cliente acabaria por preferir.

❖ ❖ ❖

Ele voltou para casa. Fez café. Pôs a mesa. Acordou os filhos.

A Joana apareceu na cozinha, ainda meio a dormir, com o cabelo do lado errado e uma mancha de pasta de dentes no colarinho do pijama.

— Está tudo bem? — perguntou.

O Miguel disse que sim. Estava.

A vida deles funcionava. O amor deles era verdadeiro.

A app registava reciprocidade estável e não recomendava intervenção.

Afixado para os devidos efeitos.
André Santo Amaro
12 de Agosto de 2026

Comentários

Ainda ninguém comentou este edital.

Máximo de 2000 caracteres.

Os comentários são lidos antes de serem afixados.

100 vistas 2 gostos 0 comentários
Todos os editais