
Sobre bandas de rock, cães com laçarotes e o problema geral das ovelhas
O Pedro é o nosso baterista. Mede qualquer coisa como um armário. Cabedal, ganga rasgada, cabelo loiro comprido até às costas, sempre escovado, duas alianças de ouro no mindinho de um casamento que não foi o dele. A roupa é 100% rock and roll. Os cães são 100% outra coisa. Chamam-se Xano, Cristo, Fábio, Janine e Julieta. O Pedro trata-os por “você”. Usa-lhes laçarotes cor-de-rosa e t-shirts de estimação. Quando rapa o pelo — o que acontece com frequência perturbante — expõe ao mundo um lombinho tísico que nenhum ser vivo deveria ver antes do almoço.
Ensaiamos na garagem do Pedro. Paredes brancas sem uma mancha. Bancos cor-de-rosa que ele trouxe da cozinha. É o tipo de sala de ensaios onde a Cinderela se sentiria em casa. Nós, não tanto.
Às vezes paramos uma música a meio porque um dos cães precisa de assistência. É uma questão de princípio: é a casa dele. Nós respeitamos. O rock and roll aguarda.
Antes de entrar na garagem, passa-se por um pequeno hall. Na parede, pendurado ligeiramente torto, há um quadro. Não é grande. Não tem enquadramento. Está ali meio por acidente, meio de castigo.
À primeira vista parece uma paisagem holandesa normal: moinho, rio, ponte, barco, agricultor. E uma ovelha. Mas a ovelha não é normal. É negra, desproporcional, levemente monstruosa, como se tivesse saído de um pesadelo de Minecraft por cima de uma tela de domingo à tarde.
A história é esta: o pai do Pedro inscreveu-se num curso de pintura. Passou meses lá. No final do curso, trouxe o quadro para casa, embrulhado. Desembrulhou-o. Disse à mãe do Pedro que era gay e que ia viver com o professor. A mãe ouviu. Pegou num pincel. Pintou a ovelha por cima do que lá estava. O pai não voltou.
A mãe morreu. O Pedro foi buscar o quadro ao sótão, mandou-o restaurar a uma escola de arte antiga, e pediu expressamente que deixassem a ovelha tal como estava. Eles estranharam. Ele não discutiu o preço.
“A Ovelha Negra” é o nome que a mãe lhe deu quando o atirou para o sótão. O Pedro achou que ficava bem assim.
Nós passamos por esse quadro toda a semana, dois dedos antes de entrar na sala a tentar ser uma banda de rock. Ninguém comenta. O Jorge uma vez parou, olhou fixamente durante uns dois minutos com o cigarro aceso na mão, e disse baixinho: “Foda-se. Nunca fui à Holanda... como é possível.” Apagou o cigarro no chão, chutou-o porta fora, e voltou para o seu lugar na formação.
É este o nosso ambiente de trabalho. Uma garagem imaculada, cinco cães anões com laçarotes, uma ovelha com trauma familiar e quatro quarentões que acreditam, com mais fé do que talento, que ainda vale a pena queimar alguma coisa.
Pode ser. Provavelmente não. Mas pelo menos o Pedro tem casa.
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