Desadultando

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A minha sogra fazia magia no quintal
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Capítulo 1 de 6 · Edital n.º 06/2026

A minha sogra fazia magia no quintal

Durante anos, achei aquilo apenas uma excentricidade doméstica, como quem coleciona selos, doenças raras ou opiniões políticas absurdas. Havia poções em frascos de vidro, aparelhos com aspeto medieval, vestes ornamentadas com animais mortos e um cheiro constante a alecrim queimado, ferrugem húmida e galinha mal resolvida. No meio daquela feira renascentista do inferno, o que mais me perturbava nem era o resto. Era a parabólica ligada ao iPad e à rede elétrica. Isso, sim, parecia-me de uma falta de coerência ofensiva. Nunca achei nada daquilo normal, mas também nunca me incomodei muito. Passava-se no quintal, e eu desprezava esses acontecimentos como desprezava os gatos: com distância prudente e uma aversão silenciosa. Desde que fosse lá fora, tudo bem.

Certo dia, logo pela manhã, ouvi-a gritar de forma diferente.

— Finalmente, finalmente!

Pensei que tivesse descoberto como transformar cocó em ouro, mas não. Do espaço veio uma chaleira voadora e levou-me com ela deste planeta. A única coisa que ainda a ouvi dizer foi:

— Assim, a minha filha será mais feliz!

De todos os futuros que imaginei, em nenhum estaria a bordo de um ovni com a minha sogra aos comandos de uma chaleira rumo a outra galáxia.

Acordei numa divisão metálica, limpa demais para ser hospital, suja demais para ser paraíso. As paredes tinham aquele brilho opaco de eletrodoméstico caro e os cantos da sala pareciam desenhados por alguém que odiava ângulos retos. Havia tubos, luzes e um zumbido de fundo que me entrou logo no sistema nervoso como uma dívida. Eu ainda estava a tentar perceber se tinha morrido ou se me tinham posto numa cozinha futurista, quando um homem baixo, gordo e impecavelmente fardado apareceu diante de mim com um sorriso profissional.

— Sr., bem-vindo a bordo!

— A bordo do quê? — perguntei, com um ar sério, como se estivesse a controlar a conversa.

— A bordo do seu novo futuro. Esperamos todos que goste.

Foi então que a minha sogra entrou na divisão.

Já não vinha de saias escuras, avental e cheiro a rosmaninho queimado. Trazia um uniforme cinzento, severo, com insígnias discretas e um colarinho tão rígido que parecia impedir qualquer vestígio de humanidade de lhe subir à cara. Todos os presentes se puseram em sentido mal ela entrou, e eu tive a desagradável confirmação de que o pesadelo tinha hierarquia.

Ela olhou para a tripulação com a calma de quem tinha acabado de estacionar bem à primeira e começou a falar:

— Meus senhores, muito obrigada pela extração. A missão foi um sucesso. Tivemos êxito em duas gerações, duas sementes funcionais deixadas no berçário. Tudo como planeado.

Fez uma pequena pausa, olhou para mim e suspirou.

— Houve, no entanto, um pequeno problema. O pai biológico da segunda geração teve de ser resgatado comigo. E por isso heis aqui o espécime diante de vós.

O mais pequeno e gordo dos presentes que, naquele contexto, era dizer o bastante, não pediu licença para intervir. Avançou um passo, como se a curiosidade lhe tivesse rompido a disciplina.

— E qual é a explicação, comandante?

A minha sogra cruzou as mãos atrás das costas.

— Bem. Tratar-se-ia apenas de um bocado de carne gorda pouco inteligente, capaz de efetuar a fecundação e proteger o recetáculo durante o período de maturação. Contudo, é afinal mais do que isso. A criança afeiçoou-se a ele e, em vez de adotar os conceitos da fêmea reprodutora, começou a seguir os exemplos paternais. Intolerável.

Não gostei da expressão "bocado de carne gorda", embora reconhecesse nela um certo rigor zoológico. Também não gostei de perceber, pela forma como o disseram, que eu não estava ali por engano. Estava ali porque alguma coisa correra mal, ou bem demais.

O pequeno e gordo deu mais um passo em frente, alisou a frente do uniforme com a solenidade de quem vai anunciar o fim do mundo ou a sobremesa, e olhou para mim com um misto de pena e curiosidade científica.

— Comandante, se me permite, talvez o defeito não esteja no espécime. Talvez esteja no protocolo. A ligação da criança à figura paterna ultrapassou o previsto, sim, mas isso não invalida a colheita. Pelo contrário. Pode significar que a segunda geração desenvolveu capacidades que a nossa linhagem perdeu há séculos.

A minha sogra virou-se para ele devagar, como quem escolhe entre fuzilar alguém ou corrigi-lo com uma colher de pau. Pela primeira vez desde que entrei naquela chaleira cósmica, vi-lhe qualquer coisa parecida com hesitação. Não era bondade. A minha sogra nunca teve cara de ter bondade, nem quando oferecia sopa. Era outra coisa. Medo, talvez. Medo de que aquele homenzinho gordo tivesse acabado de dizer em voz alta o que ela andara anos a esconder de si própria.

Foi então que, do fundo metálico da nave, ouvi um choro curto, abafado, quase irritado.

Não reconheci logo o som por ser pai. Reconheci-o por ser culpa.

A minha filha estava ali.

— Quero falar com ela a sós — disse eu, antes que me lembrasse de ter medo.

Houve um silêncio tão espesso que até as luzes da cabine pareceram envergonhadas. Alguns dos uniformizados trocaram olhares de pânico administrativo, como se eu tivesse pedido para rever a folha de despesas da missão. A minha sogra aproximou-se até ficar a meio palmo da minha cara e sorriu daquele sorriso seco com que, na Terra, anunciava sempre que o bacalhau tinha ficado intragável, mas todos iam comer na mesma.

— Ainda não percebeu, pois não? — murmurou ela. — Você não veio cá por acidente. Foi trazido porque a criança não largava a sua imagem nos testes de projeção. A sua voz. O seu cheiro. A sua presença. E isso, para nós, é uma anomalia grave.

Olhou de relance para a porta ao fundo, de onde o choro já se transformava numa inquietação intermitente, e acrescentou, num tom quase cansado:

— O problema, genro, não é que seja inútil. O problema é que talvez seja irrepetível.

O silêncio depois daquelas palavras foi tão absoluto que ouvi o zumbido das luzes da nave. Depois ouvi os meus próprios batimentos cardíacos, o que é sempre mau sinal.

— Irrepetível — repeti, devagar, como quem prova veneno antes de o beber. — Então a criança não é o defeito. Eu é que sou o acidente valioso.

O pequeno e gordo abriu um sorriso que não chegou aos olhos.

— O espécime começa a compreender. Maravilhoso.

A minha sogra não sorriu. Continuava a olhar para mim com aquela expressão de quem está a fazer contas de cabeça e não gosta do resultado.

— Não confunda lucidez com inteligência — atalhou ela, seca. — Você é um desvio estatístico. Nada mais. A criança desenvolveu uma dependência emocional fora do previsto. Isso compromete a pureza da amostra.

— A pureza — murmurei. — Como a pureza das ervas que cortava no quintal. Como a pureza das vestes de animais mortos. Tudo muito puro, tudo muito limpo. Até que aparece uma chaleira voadora e vem buscar o pai porque a criança chora na escuridão.

Desta vez, foi ela que hesitou. Apenas um segundo. Mas o suficiente.

O pequeno e gordo pigarreou.

— Comandante, o espécime levanta um ponto metodológico relevante. Se a ligação paterna é tão intensa a ponto de interferir com os testes de projeção, talvez devêssemos reconsiderar o protocolo de descarte. A literatura da nossa própria espécie, volume treze, parágrafo nono, recomenda...

— Cale-se, doutor — disse a minha sogra.

— ...recomenda o estudo aprofundado de anomalias afetivas antes da neutralização, concluiu ele, impávido.

Era agora. O momento em que eu podia recuar para o medo ou avançar para a única arma que tinha: a conversa.

— A senhora disse que eu fui trazido porque a criança não larga a minha imagem — comecei mantendo a voz tão baixa que todos tiveram de se inclinar para ouvir. — Disse que a minha voz, o meu cheiro e a minha presença são uma anomalia grave. Pois bem. Eu proponho uma troca.

A minha sogra arqueou uma sobrancelha. O pequeno e gordo tirou um bloco de notas do bolso do uniforme.

— Deixe-me adivinhar — disse ela, com desdém. — Quer a criança. Quer voltar para a Terra. Quer escrever um livro sobre esta experiência e ficar rico.

— Não — respondi. — Quero que me mostre o que realmente faz. Quero ver o berçário. Quero ver as outras crianças. Quero saber quantas delas choram por pais que foram descartados como "bocados de carne gorda".

O silêncio que se seguiu foi de outra qualidade. Não era hesitação. Era terror.

A minha sogra empalideceu. O pequeno e gordo deixou cair o bloco de notas. Alguém, ao fundo, desligou qualquer coisa com um clique seco.

— Isso — sussurrou o doutor, quase para si mesmo — já não está no protocolo.

— Você não tem autoridade para pedir isso — disse a minha sogra, mas a voz tremeu. Pela primeira vez, a voz tremeu.

— Então mate-me — respondi, encolhendo os ombros. — Ou mate a criança. Ou continue a fingir que eu sou apenas um erro de cálculo. Mas a senhora sabe que não sou. O doutor sabe que não sou. E pior para a senhora: a criança sabe que não sou.

Apontei para a porta ao fundo, onde o choro já tinha dado lugar a uma quietude assustada.

— A minha filha não chama por si. Não chama pela sua frota interestelar. Não chama pelos seus protocolos puros nem pelas suas colheitas programadas. Chama por mim. Um bocado de carne gorda. Um pai. E isso, comandante, é mais irrepetível do que qualquer mutação genética.

Ela ficou imóvel. Depois, muito devagar, levou a mão ao coldre.

O doutor deu um passo à frente.

— Comandante — disse ele, com uma calma que roçava a loucura — se o matar agora, nunca saberemos porquê. E a ciência, comandante, não sobrevive a "porquês" sem resposta.

Ela não respondeu. Mas o dedo, pousado sobre o coldre, não se moveu.

Foi então que a porta do fundo se abriu.

Ninguém a abriu. Simplesmente cedeu, como se tivesse sido forçada por dentro por uma mão invisível ou por uma vontade demasiado nova para conhecer regras.

E no vão da porta, com o pijama azul vestido ao contrário e os olhos inchados de choro, estava a minha filha.

— Pai — disse ela.

Não gritou. Não correu. Disse apenas, como quem confirma que a gravidade ainda funciona.

— Pai, tens de vir ver o que eu aprendi a fazer.

A minha sogra tirou a mão do coldre. Não por bondade. Porque a arma, de repente, pareceu-lhe um objeto ridículo, inútil, de outro século.

A minha filha abriu a mão direita. Na palma, perfeitamente dobrada em quatro, estava uma fatura da EDP.

— Consigo fazer aparecer. De qualquer lado. Quantas eu quiser.

Houve um silêncio na cabine que nem o zumbido das luzes se atreveu a interromper. O doutor baixou-se devagar, apanhou a fatura do chão onde ela a deixara cair, e leu. Releu. Tirou os óculos, limpou-os à farda, voltou a pô-los.

— Comandante — disse ele, com a voz de quem assiste ao fim de uma civilização — isto está em nome dela.

— Em nome de quem?

— Da criança. Morada em Aveiro. Consumo do mês passado. Quarenta e sete euros e trinta e dois cêntimos.

A minha sogra aproximou-se da fatura como se fosse uma bomba por desarmar. Leu. Releu, como o doutor. Voltou a ler. E depois, muito baixinho, quase sem dar por isso, disse uma coisa que nunca na vida lhe tinha ouvido dizer:

— Não pode ser.

A minha filha olhou para mim, à espera de instruções, com aquele ar de quem acabou de fazer uma asneira ou uma obra-prima e precisa que um adulto lhe diga qual das duas foi. Encolhi os ombros. Sorri. Ela sorriu de volta, e abriu a outra mão.

Na palma esquerda, perfeitamente dobrada em quatro, estava a fatura da água.

O doutor emitiu um som que não era bem humano. Uma espécie de soluço técnico.

— Comandante — balbuciou ele — a criança está a materializar documentos administrativos portugueses. Isto é.… isto não consta em nenhum manual. Em nenhum. Nem sequer no volume vinte e sete, onde se descrevem as aberrações.

A minha sogra não respondeu. Tinha aberto a fatura da água e estava a ler os consumos trimestrais como quem procura uma resposta teológica num recibo.

— Pai — disse a minha filha, puxando-me pela manga — mas isto não é tudo. Anda. Anda ver.

Segui-a pelo corredor metálico, com a minha sogra e o doutor atrás de nós, a certa distância, como dois cientistas que já não sabiam se estavam a observar uma experiência ou a assistir a um funeral. O corredor estreitou. As luzes tornaram-se mais quentes. E, ao fundo, havia uma porta pequena, de aspeto doméstico, com uma maçaneta vulgar, como se alguém tivesse arrancado a porta da despensa de uma casa de Aveiro e a tivesse encaixado ali, no meio da nave, sem pedir licença.

A minha filha abriu a porta.

Lá dentro havia apenas uma mesa, uma cadeira, e, em cima da mesa, uma panela.

— Abre — disse ela.

Abri.

Lá dentro, a ferver sem lume, estava uma sopa de couve perfeita. Perfeita no sentido técnico: o caldo tinha a consistência exata, a couve estava cortada à mão como a minha mãe cortava, e havia um fio de azeite à superfície a desenhar, muito lentamente, a palavra pai.

Fiquei um bocado de tempo a olhar para aquilo. Não por espanto. Por reconhecimento. Era a sopa da minha mãe. A minha mãe que tinha morrido quando a minha filha ainda nem sabia andar. A minha filha nunca tinha provado aquela sopa. Nunca. E, no entanto, ali estava ela, a ferver sem lume, com o azeite a escrever a minha identidade à superfície.

Atrás de mim, ouvi o doutor sussurrar:

— Comandante, isto não é telecinesia. Isto é memória afetiva manifestada em matéria orgânica. Nunca foi documentado em lado nenhum do universo conhecido. A criança está a puxar objetos não de onde eles estão, mas de onde eles foram.

A minha sogra apareceu à porta. Olhou para a panela. Olhou para a filha. Olhou para mim. E depois fez uma coisa que me desorganizou mais do que toda a viagem espacial.

Cheirou.

Fechou os olhos, inclinou-se muito ligeiramente sobre a panela, e cheirou. E eu vi, na cara dela, uma coisa que nunca tinha visto em vinte e sete anos: vi-a pequena. Vi a rapariga que ela tinha sido antes de se tornar naquilo. Vi a filha que ela própria foi, um dia, a alguém.

— Esta sopa — disse ela, e a voz saiu-lhe rouca, quase irritada consigo própria — esta sopa não é da mãe dele.

Virei-me para ela.

— Como?

— Esta sopa — repetiu, sem abrir os olhos — é da minha mãe. Era assim que ela cortava a couve. Era assim que ela punha o azeite.

Ficámos os três em silêncio. A minha filha, eu, e aquela mulher que tinha organizado uma missão interestelar para me apagar da equação e que agora estava a meio palmo de uma panela a cheirar a infância.

O doutor tirou uma caneta do bolso. Abriu um pequeno caderno. Começou a escrever. Depois parou. Fechou o caderno. Voltou a guardá-lo. Olhou para mim com uma expressão que era, pela primeira vez desde que eu o conhecera, inteiramente humana.

— Eu não sei o que é que a criança fez — disse ele. — Mas sei o que desfez.

A minha sogra abriu os olhos. Estavam molhados. Não chorava. Mas estavam molhados, e na cara de alguém como ela isso era praticamente uma tempestade.

— Não — murmurou. — Não me faças isto.

Ela não falava comigo. Nem com o doutor. Falava com a neta.

— Não me faças isto agora. Depois de tudo o que eu organizei. Depois de todos os protocolos, de todas as colheitas, de todas as gerações. Não me faças lembrar.

A minha filha subiu para a cadeira, pegou na panela com as duas mãos, e estendeu-a à avó.

— Come — disse ela. — Está boa.

E a minha sogra, comandante de uma frota interestelar, executora de duas gerações de colheitas puras, mulher que tinha transformado um quintal em Aveiro numa base avançada de extração genética, agarrou na panela como quem agarra num filho, e comeu a sopa com as mãos.

Comeu a chorar. Não muito. O suficiente.

O doutor saiu da divisão em silêncio. Ouvi-o, no corredor, dar uma ordem a alguém. Ouvi as luzes mudarem de tom. Ouvi qualquer coisa na nave desligar-se, como se um motor muito antigo finalmente tivesse permissão para descansar.

A minha filha olhou para mim.

— Pai — disse ela — podemos ir agora?

Não sei como voltámos. Nunca mais quis perguntar. Só sei que, quando acordei, estava deitado no sofá da sala, com ela em cima de mim a dormir, e, na cozinha, a minha sogra estava a fazer sopa. Nada disso era novidade. Era um domingo como todos os outros domingos.

Mas agora, quando ela me põe a sopa à frente, já não olha por cima do prato. Olha-me nos olhos.

E eu, como um bom bocado de carne gorda, como em silêncio. E deixo-a olhar.



Aquela Guitarra Marada
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Capítulo 2 de 6 · Edital n.º 08/2026

Aquela Guitarra Marada

O avô contava-me uma história sobre uma guitarra que comprou em Lourenço Marques, sempre da mesma maneira. Contava-a sempre com a tranquilidade de quem sabe do que fala.

Segundo ele, durante quatro meses fez parte de uma banda de rock. Ele, o Pedro, o Jonas e a Cláudia. Tocaram em quase todas as salas decentes de Lourenço Marques. Tocavam sobretudo temas franceses: canções de amor ou rock and roll. De vez em quando, traduziam as canções para português.

— Mas, avô, tu não sabes tocar nenhum instrumento! — dizia eu.

— Ah, ah! Pois aí é que a história é mágica. É aí que entra a guitarra marada. Era diabólica, mas no bom sentido. Espetacular.

E começava sempre pelo princípio. O verão em que o pai o mandou para Lourenço Marques. Foi para trabalhar com o tio e aprender alguma coisa sobre a vida.

O tio era agricultor e ele deveria aprender a lavrar, semear, gradar e a saber como tratar o milho, a espiga e mais não sei o quê. Era, além de agricultor, um excelente professor. E essa é parte difícil da história. Ou a fácil, depende que quem a conta.

Estou a contar a versão que o meu avô contava. Segundo ele, correu tudo exatamente como devia correr. Os problemas são sempre colocados por quem a escuta e fica com vontade de fazer perguntas. Uma história é uma história.

— Avô, mas isso não faz sentido.

E ele respondia sempre:

— Pois não. Ainda não.

Depois bebia o seu café, como se a frase tivesse respondido a tudo o que havia para saber.

*

O tio, esse excelente professor de milho, acordava cedo. Era aborrecido e quase indecente a maneira como acordava cedo. Ainda os galos estavam a avaliar se já era hora de serem galos e já ele andava de pé. E, logo a seguir, a chamar o meu avô para aprender a vida, que naquele lugar, era uma enxada, baldes e semeadoras.

Era uma terra enorme, seca em certos sítios, teimosa noutros. Mas, havia uma boa quantidade de milho que parecia crescer só para a contrariar e fazer a vontade ao meu tio. Ele, explicava tudo com paciência ao meu avô. Como lavrar. Como semear. Como gradar. Como olhar para uma espiga e perceber se ela estava boa, doente ou apenas desapontada.

O meu avô não percebia nada. Não por falta de inteligência ou de atenção. Por falta de interesse. São coisas diferentes, embora os adultos confundam muito.

Ele tinha outro plano. Queria um carro. E por isso aceitava aprender.

Não sabia que carro queria. Isso era um pormenor técnico. Queria um com volante, rodas, bancos, buzina. Um que lhe conferisse a dignidade que só um rapaz pobre imagina que vem incluída no preço. O carro não era transporte. Era uma declaração. Seria ele a dizer ao mundo: "Muito bem, já chega de andar a pé."

O problema era que, para comprar um carro precisava de dinheiro. E para ter dinheiro, segundo o pai e o tio, precisava de trabalhar. E para trabalhar, segundo a terra, precisava de gostar de milho e aprender.

*

Nos dias em que consegui fugir, ia para Lourenço Marques. Não era fugir, propiamente. Era deslocar-se estrategicamente para comprar algo necessário.

O tio perguntava:

— O quê?

— Coisas.

— Que coisas?

— Coisas que nos fazem falta.

O tio olhava para ele como quem via um burro a tentar preencher uma declaração fiscal, mas deixava-o ir. Ou porque também já tinha sido jovem ou, talvez, porque a enxada descansava melhor sem ele e havia mais do que fazer sem ela.

Foi numa dessas escapadas que encontrou a loja.

A loja não estava escondida. Isso é importante. Normalmente estas lojas aparecem em becos impossíveis, entre duas portas que não existiam ontem.

Nada disso. Estava numa rua normal. Tinha uma porta normal e uma montra como as outras, se uma pessoa aceitasse como normal uma montra com um trompete partido, três maracas viúvas e um cartaz a dizer:

INSTRUMENTOS * CONSERTOS AFINAÇÕES * ASSOPROESPIRROS

( PAGAMENTOS A COMBINAR )

Em Lourenço Marques, nessa altura, para um estabelecimento comercial normal, não era tão estranho como parece. Havia lojas que vendiam pneus usados, botões partidos, medicamentos sem receita e fotografias para documentos. Havia uma onde se podia comprar uma galinha e, se o dono estivesse bem-disposto, dava também um conselho matrimonial impossível de recusar. Portanto, uma loja que vendia assoproespirros estava dentro dos limites do comércio local.

O avô entrou.

— Porquê? — perguntava eu, quando era pequeno.

— Porque a porta estava aberta — dizia o meu avô.

— Mas tu querias um trompete?

— Não. Queria um carro. Já te tinha explicado.

— Então porque entraste numa loja de instrumentos?

— Porque as pessoas que querem carros também podem entrar em lojas de instrumentos. Para isso não há fiscais à porta.

E ficava por ali a explicação.

*

O dono chamava-se Mateus Nhamurre.

Ou, pelo menos, era esse o nome que estava escrito numa placa atrás do balcão, ao lado de um preçário onde quase nada tinha os preços indicados. O homem que estava atrás de um balcão com muitas gavetas, tossia com autoridade. E assim sabia-se que era o dono.

Mateus Nhamurre era magro, usava uma camisa clara e tinha um ar de quem nunca se espantava com nada porque já tinha visto coisas mais ou menos explicáveis do que a vida, o universo e tudo mais. Não era velho, mas também não era novo. Era daquela idade em que uma pessoa já começa a parecer uma instituição.

— Boa tarde — disse o meu avô.

— Ainda é cedo para saber — respondeu ele.

O avô teve vontade de sair a correr da loja. Mas estava calor, a loja tinha sombra e havia uma cadeira. Uma pessoa que encontra sombra e uma cadeira ao mesmo tempo, baixa muito os seus critérios de segurança.

A loja estava cheia de instrumentos. Havia guitarras, claro. Havia tambores. Havia um piano pequeno com uma etiqueta onde se lia "PIANO DE BENGUELA”, com um cartão que dizia “não insistir nas teclas pretas". Havia uma coisa com tubos, panos e uma pega, que podia ser instrumento ou equipamento médico, com uma etiqueta onde se lia “ASSOPROSPIRRO”, com um cartão que dizia “não usar se não tiver a certeza”. Havia uma bateria incompleta, com um papel preso ao bombo onde se lia “BATERIA PARA BATER”, com um cartão que dizia “não confundir com bateria de estar ".

Ele não perguntou. Já sabia que há perguntas que, quando feitas em voz alta, estragam os negócios. No fundo, pendurada na parede, estava a guitarra.

Não era bonita ou feia. Tinha a madeira riscada, o braço ligeiramente torto e uma das cordas parecia estar ali encaixada por favor e como muito esforço. Dava a sensação de ter sido afinada por um macaco, mas continuava a ter alma.

— Esta — disse ele.

Mateus Nhamurre nem olhou.

— Essa não.

— Porquê?

— Essa, é marada.

— Está avariada?

— Não. Se estivesse avariada era mais simples.

— Então?

— É marada.

Disse aquilo como um homem que já tinha desconstruído este diálogo muitas vezes.

— Eu nem sei tocar — disse o meu avô.

— Ah! Assim é melhor.

— Melhor?

— Esta guitarra não se recorda de notas separadas. Lembra-se de coisas inteiras. Os que sabem tocar baralham tudo.

Isto, segundo ele, fazia todo o sentido. Segundo qualquer outra pessoa, era motivo para sair da loja e ir procurar sobra e um copo de água noutra loja.

— Quanto custa?

Mateus Nhamurre abriu uma das gavetas. Tirou de lá uma caderneta, molhou o dedo na língua e folheou umas páginas.

— Depende da modalidade.

— Tenho pouco dinheiro.

— Então não recomendo a modalidade dinheiro.

— Há outra?

— Há sempre outra. O problema do mundo é esse.

Passou o dedo pela caderneta, encontrou uma linha que gostou e leu:

— Regime de acontecimento. Direito a um dente de ouro que ainda não tens.

— Mas não tenho nenhum dente de ouro.

— Por isso mesmo é que é fiado. Regime de acontecimento.

— E se eu nunca vier a ter?

Mateus Nhamurre fechou a caderneta.

— Nesse caso, paga a história. Ou o que dela vier.

— Que história?

— Esta.

— Mas ainda não aconteceu nada.

— Melhor. As histórias que já aconteceram vêm cheias de gente a corrigi-las.

O meu avô reproduzia esta fala com uma seriedade aborrecida, como quem explica que a chuva molha e que é normal a repartição de finanças estar fechada à hora de almoço.

— E tu aceitaste? — perguntava eu.

— Claro.

— Claro porquê?

— Porque era melhor do que pagar a pronto.

*

Foi assim que comprou a guitarra marada, com o direito a um dente de ouro que ainda não tinha. Mateus Nhamurre escreveu o acordo num papel, carimbou-o com um carimbo sem tinta e guardou-o numa gaveta onde, segundo o meu avô, estavam outros papéis parecidos.

— Parecidos como?

— Não vi. Não era da minha conta.

Antes de sair, Mateus Nhamurre disse-lhe duas coisas.

A primeira:

— Não a afines demasiado.

A segunda:

— Quando ela tocar mal, não é defeito. É opinião.

*

O meu avô levou a guitarra embrulhada num pano e voltou para casa do tio.

O tio viu-o chegar.

— O que é isso?

— Uma guitarra.

— Sabes tocar?

— Ainda não.

— Compraste uma guitarra sem saber tocar?

— Tecnicamente não comprei. Fiquei a dever um dente.

O tio ficou calado. Aceitou.

Há silêncios que são apenas silêncios. Aquele era um silêncio com a sabedoria de quem lida com máquinas agrícolas há muito tempo, mas que confia tanto na meteorologia como no acaso.

— Vai comer e vai dormir — disse ele.

E pronto. Era um homem muito sabido. Não fazia perguntas quando percebia que a resposta poderia ser pior.

*

Nos dias seguintes, o meu avô trabalhou de dia e tentou tocar à noite.

"Tentou" é uma palavra educada.

Segundo ele, a guitarra tinha um sistema muito próprio. Quando ele punha os dedos no sítio errado, ela fazia um som. Quando punha no sítio certo, fazia outro som, mas não necessariamente melhor. Às vezes parecia música. Às vezes parecia uma cadeira a pedir desculpa por ranger.

Mas havia uma coisa em que ele insistia ser a regra. Sempre que ele desistia a guitarra melhorava. Quando ele se esquecia que queria ser músico e ficava apenas ali, sentado a pensar no carro, a guitarra arranjava maneira de soar a qualquer coisa. Não muito. Apenas o suficiente.

— Então ela tocava sozinha?

— Não.

— Então eras tu? Aprendeste?

— Também não exageremos.

E era assim que ele explicava.

*

Conheceu o Pedro numa tarde em que estava a tocar mal junto a uma parede.

O Pedro apareceu com duas baquetas no bolso.

— Isso é uma guitarra?

— Em princípio. Foi o que eu pensei.

— Tocam?

— Quem?

— Tu e ela.

— Estamos em negociações. Ainda não estou certo de que sim.

O Pedro aceitou a explicação sem dificuldade. Era baterista, mas não tinha bateria. Segundo ele, isso era temporário desde que se recorda. Mas não era o problema.

— Uma bateria é uma questão de fé e eu acredito — dizia.

Depois apareceu o Jonas, que sabia três acordes e tinha a vantagem de os saber sem mudar a expressão facial, a mesma que apresentava para tudo na vida. Parecia que estava a começar uma revolução, empenhado, mesmo quando apenas procurava o sítio onde tinha deixado os cigarros.

A Cláudia apareceu por último. Cantava em francês, ou pelo menos parecia, até à terceira garrafa de cerveja. Quando o público era simpático, dizia que as canções eram da Edith Piaf. Quando o público era exigente, dizia que eram de uma compositora desconhecida, mas com futuro. Ninguém tinha vontade de a contradizer.

— Ela sabia francês? — perguntava eu.

— Não o suficiente para estragar a música.

E foi assim que a banda ficou feita.

Não houve nome, contrato, ensaios nem conversas sérias. Aconteceu. Há coisas que aparecem completas, como triângulos, dúzias ou más decisões.

*

Tocavam canções francesas, canções de amor e de rock and roll. Quando não sabiam a letra, inventavam. Quando não sabiam a música, aceleravam. Quando o público parecia desconfiado, a Cláudia cantava mais alto e o Jonas fazia um ar estrangeiro.

A guitarra marada tinha funções específicas. Disfarçava erros pequenos e erros médios em estilo. Quanto aos erros grandes, era o Pedro que os resolvia a fazer mais barulho. E foi assim que, segundo o meu avô, tocaram em quase todas as salas decentes de Lourenço Marques durante quatro meses. Pelo menos foi o que lhe pareceu.

— Quase todas as salas? De Lourenço Marques?

— Sim.

— Quantas eram?

— As suficientes, para nós e para quem nos ouviu.

— Mas eram muitas?

— Neto, tu estás muito preso à contabilidade.

Nunca esclareceu. Dizia que umas tinham palco e outras tinham uma espécie de palco. Uma tinha uma mesa que, depois de beber uns tricofaite ou catembes , podia ser considerada palco por gente aberta à arte e à cultura local.

Ganharam dinheiro. Não muito. O suficiente para comer, para deslocarem-se, para pagar uma ou outra dívida e, sobretudo, para o meu avô juntar para o carro.

Mateus Nhamurre apareceu em alguns dos concertos. Só nos que, segundo ele, "poderiam ter consequências". Sentava-se ao fundo, não batia palmas e no fim fazia comentários.

— Hoje a guitarra trabalhou acima da garantia.

Ou:

— Hoje tocaste pouco. Foi sensato. E foi melhor assim.

Ou ainda:

— Cuidado com a terceira corda. Está a desenvolver ideias.

O meu avô não perguntava nada. Aprendeu que Mateus Nhamurre respondia sempre, mas raramente à pergunta.

No último mês, a banda começou a ser conhecida. Nunca foi famosa. É diferente. Famoso é quando as pessoas sabem quem tu és. Conhecido é quando alguém na rua diz "olha, lá vai o rapaz da guitarra que toca para um lado sozinha e a banda vai pelo mesmo".

Para o meu avô, chegava.

*

Acabado o tempo em Lourenço Marques, o pai mandou-o chamar. O tio já o tinha ensinado a lavrar, semear, gradar. Também aprendeu sobre o destino, mas que essa parte do destino, diz que aprendeu noutro sítio.

Antes de voltar, foi à loja.

Mateus Nhamurre estava atrás do balcão. Normal.

— Venho despedir-me — disse o meu avô.

— Não é necessário.

— Não?

— Quem se despede é porque acha que manda na distância do mundo. Enquanto te lembrares a distância será sempre zero.

O meu avô ficou calado e esperou.

— A guitarra fica? — perguntou Mateus Nhamurre.

— Fica?

— Ou vai?

— Pensei que era minha.

Mateus Nhamurre abriu a caderneta.

— Tua não é bem o termo. Está em regime de acontecimento.

— Isso quer dizer o quê?

— Quer dizer que, possivelmente, já fez o que tinha a fazer.

O meu avô olhou para a guitarra. A guitarra não disse nada. O que, segundo ele, numa guitarra, é o normal. Ele contava com mais.

Deixou-a na loja, perguntou:

— Então e o dente?

Mateus Nhamurre fechou a caderneta.

— Ainda não tens!

— E quando eu o tiver?

— Logo se vê.

— Mas, eu vou embora. Não volto mais.

— Ah bom! Isso ajuda!

— Ajuda em quê?

— A história.

*

O meu avô voltou sem guitarra, mas com dinheiro suficiente para comprar um carro. Não um grande carro. Não um carro novo. Um que não era bonito, consensualmente. Tinha uma porta que fechava, um banco que cheirava a cão e uma buzina que parecia soltar insultos numa língua estrangeira. Mas andava. E, para o meu avô, andar era o essencial.

Nunca mais voltou a Lourenço Marques.

— Porquê? — perguntava eu.

— Porque não é preciso.

— Mas não querias ver a loja outra vez?

— Para quê? Já a vi.

— E o Mateus Nhamurre?

— Também.

— E a guitarra?

— Principalmente.

Ele dizia isto sem saudade. Como quem sabe que um comboio que chegou ao destino não olha para trás para agradecer aos carris.

*

Durante anos, achei que aquela história era uma boa mentira. Daquelas de família, que não fazem mal a ninguém e ajudam os domingos a passar.

Até que, já mais crescido, procurei. Talvez porque há uma idade em que uma pessoa começa a desconfiar que os velhos, mesmo quando mentem, podem estar a esconder alguma verdade mal embalada.

Procurei por "Mateus Nhamurre". Nada.

Procurei por "guitarra marada Lourenço Marques". Apareceram coisas que não interessavam, incluindo venda de amplificadores às peças.

Depois procurei por "Assoproespirro".

E encontrei.

Era uma página velha, dessas que parecem feitas por alguém que descobriu a internet e aposto tudo em gifs animados. Tinha fotografias antigas de ruas, lojas, anúncios, faturas, letreiros. Quase tudo mal digitalizado.

E lá estava uma fotografia.

Uma montra estreita. Uma porta verde. Um letreiro torto.

NHAMURRE - INSTRUMENTOS, CONSERTOS, AFINAÇÕES

ASSOPROESPIRROS E PAGAMENTOS A COMBINAR

Ampliei a imagem.

No fundo da montra havia uma guitarra pendurada.

Não dava para ver bem. Podia ser qualquer guitarra. Podia ser aquela. Podia não ser.

Por baixo da fotografia havia uma legenda:

Loja de Mateus Nhamurre, Lourenço Marques. Referida oralmente por músicos locais como ponto de encontro de pessoas com capacidades musicais referidas nos resultados. Conhecida por aceitar pagamentos invulgares.

Fiquei parado a olhar para aquilo. Uma coisa é um avô mentir, outra é a internet colaborar.

*

No domingo seguinte, perguntei-lhe.

— Avô.

— Hum?

— Encontrei a loja.

Ele não levantou logo os olhos. Estava a descascar uma laranja com um canivete, como se a laranja tivesse sido julgada, sentenciada, mas ele não quisesse executar a sentença daquela forma cruel.

— Que loja?

— A do Mateus Nhamurre.

Continuou a descascar.

— Ainda bem.

— Ainda bem?

— Se encontraste, é porque estava lá.

— Mas isso não prova nada.

Ele olhou para mim. Não com espanto. Com uma pena calma.

— Neto, tu tens de acreditar mais. Não por causa da magia. Por causa da lógica das coisas.

— Mas que lógica?

— O teu problema é quereres que as coisas façam sentido antes de acontecerem.

Depois meteu um gomo de laranja à boca e ficou a mastigar. Para ele, o assunto estava encerrado.

Mas, para mim, não.

— E o dente de ouro?

O meu avô parou, sorriu um segundo e continuou a comer.

— Isso já é outra história.

E, quando sorriu, pareceu-me ver, lá ao fundo da boca, uma coisa a brilhar. Mas também podia ser a luz da cozinha. Ou a lógica das coisas. Não fiquei a saber.


A Máquina de Escrever Amestrada
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Capítulo 3 de 6 · Edital n.º 10/2026

A Máquina de Escrever Amestrada

Desde pequeno que todos me olham de lado. Durante anos não percebi porquê, mas hoje já sei: era inveja. Sou um brilhante domador de máquinas de escrever, e isso, num mundo que escreve com os polegares, incomoda muita gente. Ora, comecemos pelo início.

Uma máquina de escrever é um aparelho mecânico com teclas que, ao serem carregadas, fazem pequenas peças metálicas bater numa fita com tinta e imprimir letras, números e símbolos numa folha de papel. Carregas no A → aparece um A no papel, definitivo, orgulhoso e impossível de fingir que nunca aconteceu. Não há "Undo" nem backup, e o copy-paste é feito através de papel químico.

Ao contrário de um periquito, ou papagaio, a minha máquina de escrever mordia-me os dedos, não quando lhe dava um fruto seco ou uma couve, mas quando eu tentava escrever frases feitas, ou ideias comuns. Tinha uma personalidade imensa.

Chamava-se Teleia.

O nome parece brasileiro, mas é grego. Vem de *teleios*, que quer dizer perfeito, completo, acabado. Não fui eu que lhe pus o nome. Foi ela que se apresentou assim, no terceiro dia, depois de eu tentar várias vezes escrever "olá, sou novo aqui" e ela me ter respondido sempre com a mesma palavra: TELEIA. TELEIA. TELEIA. Até eu perceber que não era avaria. Era apresentação.

Todas as manhãs, eu saía de casa, antes de ir para a escola, para ir passear a minha máquina de escrever. Tenho sempre de escrever um resumo do dia anterior, aprender uma palavra nova ou expor uma teoria antes de poder ir ao meu dia. A Teleia exigia este passeio diário com a mesma firmeza com que outros cães exigem festas. Se eu saltasse um dia, ela trancava-se. Não literalmente. Mas as teclas ficavam duras, a fita encrespava, e quando eu finalmente tentava escrever qualquer coisa, saía sempre torto, como se estivesse zangada e quisesse que eu soubesse.

Tinha mais manias.

Não escrevia logo. Exigia um minuto inteiro de silêncio antes da primeira tecla. Aprendi isto à minha custa. Nas primeiras semanas, atirava-me ao papel mal me sentava, e ela respondia com símbolos aleatórios, pontos de exclamação a meio de palavras, parêntesis sem motivo, um til a flutuar sozinho como se estivesse a contemplar a vida. Demorei a perceber que aquilo não era avaria. Era protesto. A Teleia precisava de um minuto de silêncio para arrumar as ideias dela antes de aceitar as minhas.

Tinha alergia a emojis. Isto, no início, não foi problema, porque uma máquina de escrever não tem teclas para emojis. O problema veio depois, quando os meus colegas começaram a escrever-me bilhetes com carinhas desenhadas à mão, e eu, distraído, copiei um para a Teleia. Ela mordeu-me o dedo médio com tanta força que sangrou. Foi a única vez. Aprendi.

Só aceitava metáforas se fossem úteis. Esta foi a mania mais difícil de respeitar. Eu, na escola, tinha aprendido que metáforas eram bonitas. A Teleia tinha aprendido que eram, na maior parte dos casos, decorativas. Quando eu escrevia "o sol era um olho de ouro no céu", ela engasgava-se. Mas quando eu escrevia "a tristeza é uma mala que pesa mais quando ninguém oferece ajuda", ela aceitava sem protesto. Levei meses a perceber a diferença. A metáfora útil é a que faz uma pessoa perceber uma coisa que sem ela não teria percebido. A metáfora decorativa é a que substitui uma palavra simples por uma combinação bonita. A Teleia distinguia as duas com a precisão de um professor de Português reformado e maldisposto.

E tinha uma tecla preferida. O “A”.

A primeira do alfabeto. A vogal das vogais. A tecla que ela carregava com mais entusiasmo, mesmo quando o A não fazia falta. Se eu escrevesse "tarde", às vezes saía "taArde". Se escrevesse "casa", saía "caasa". No início, achei que era avaria. Tentei limpar, ajustar, oleá-la com aquele óleo de costura da minha avó. Nada. Continuava a fazer o A em duplicado quando estava feliz. Acabei por perceber que era assim que ela ria. As pessoas riem com a boca. As máquinas de escrever, pelos vistos, riem com a tecla preferida.

---

No entanto, antes de a poder passear com bonitos textos, crónicas ou apenas ideias para o futuro, empenhei muito do meu tempo a domesticá-la. Ela só queria escrever memes e sms. No máximo com 160 caracteres (incluindo espaços). Era burra, preguiçosa, seca e directa.

E havia um problema específico: a Teleia tinha aprendido a escrever no século errado. Quando eu lhe pedia coisas longas, com pontuação a sério, ela respondia como se estivesse num grupo de WhatsApp. Traduzia. Era o seu instinto.

A pior tradução de todas aconteceu numa tarde em que decidi levar para a escola o poema *O Guardador de Rebanhos*, do Fernando Pessoa. Tentei vezes sem conta datilografá-lo. Ainda tenho o papel onde está escrito o seguinte:




Sou tipo pastor de pensamentos.

A minha tropa de ovelhas são as cenas que penso.

E as cenas que penso são tudo vibes. Penso c/ olhos e c/ os ouvidos.

E também com as mãos e os pés. E com o nariz e a boca, ya.

Mano, a flor é bacana e cheira bué fixe.

A fruta tem sabor, literalmente.

Por isso, num dia bué quente, o meu mood é random mas a vibe é fixe,

deito-me dramático na relva, fecho os olhos com o calor absurdo,

sinto o corpo todo ali, mesmo low-cost real,

percebo a cena e não me sinto NPC.

Foi mesmo difícil ensinar-lhe a poesia lírica introspetiva com reflexão filosófica. O treino durou meses.

Comecei pelo silêncio. Sentava-me à frente dela com as mãos no colo, sem tocar nas teclas, e ficava assim durante minutos inteiros. Ela, no início, achava que eu estava a brincar. Carregava sozinha em teclas aleatórias para ver se eu reagia. Não reagia. Ficava quieto. Ao fim de duas semanas, ela percebeu que silêncio não era ausência. Era preparação.

Depois ensinei-lhe paciência. Esta foi mais difícil, porque a paciência não se ensina, contagia-se. Eu próprio não tinha muita. Mas comecei a escrever frases lentas. Uma palavra por minuto. Depois uma palavra por dois minutos. Depois parágrafos inteiros que demoravam tardes. Ela protestou no princípio — mordia, encrespava a fita, fazia o A em duplicado mesmo onde não devia. Mas ao fim de um mês começou a desacelerar comigo. Ficámos os dois lentos. Era estranho. Era bom.

A parte mais difícil foram as palavras compridas.

A Teleia tinha sido educada ( se é que se pode dizer isto de uma máquina) num ambiente de abreviaturas. "Bjs", "tbm", "vc", "pq". Quando eu lhe punha à frente palavras como "melancolia", "perscrutar", "inefável", ela tremia. Não conseguia. Saía sempre uma versão truncada. "Melanc". "Persc". "Inef". Aprendi a dividi-las. Primeiro a primeira sílaba. Depois a segunda. Depois a juntar. Como quem ensina uma criança a ler, mas ao contrário: a Teleia já sabia ler depressa. Tinha de aprender a ler devagar.


Ao fim de seis meses, conseguia digitar Pessoa. Não o Pessoa-versão-meme do princípio. O Pessoa a sério. Linha por linha, com os "porquês" todos por extenso, com os pronomes todos no sítio, com as vírgulas a respirar como devem.

Lembro-me do dia exato. Era uma manhã de outubro. Estávamos os dois sentados à mesa da cozinha, ela na frente de mim, e eu escrevi:

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.


Ela não mordeu. Não encrespou. Ficou quieta.

Eu também.

Acho que foi nesse momento que percebi que ela não era uma máquina. Era uma aluna. E eu não era um domador. Era um colega de turma um bocadinho mais velho.

Foi por essa altura que começou o problema da escola.

A escola, nos meus tempos, ainda permitia telemóveis. Não era boa ideia, mas era a regra. Toda a gente tinha telemóvel. Eu não. Tinha a Teleia. Levava-a às costas numa mala de couro velho que tinha sido do meu avô, e quando os professores pediam um trabalho escrito, eu pedia licença para a usar. A maior parte achava graça. Alguns achavam excentricidade. Um ou outro achava provocação.

Os meus colegas achavam, sobretudo, que eu era estranho.

E havia a Mariana.

A Mariana escrevia. Escrevia bem, isto é importante dizer. Tinha um Instagram com mais de quarenta mil seguidores onde publicava o que ela chamava "micro-poesia". Frases curtas, em fundos pastel, com uma fonte cursiva. Coisas como "o silêncio é uma forma de barulho que ainda não foi inventada" ou "amar é dar o primeiro passo sem perguntar se há chão". Não eram frases más. Algumas eram boas. Eu próprio, em segredo, achava que algumas eram melhores do que aquilo que eu conseguia escrever com a Teleia. Mas eram diferentes.

Eram rápidas. Eram polidas. Eram feitas para o scroll. A Mariana escrevia uma frase, mostrava ao grupo da turma, recebia trinta corações em três minutos, e passava à seguinte. Em meia hora podia produzir vinte frases. Em meia hora, eu e a Teleia tínhamos escrito, com sorte, três linhas de qualquer coisa que ainda não sabia bem o que era.

A professora de Português, que se chamava Dona Helena e tinha cabelo cinzento curto e óculos pendurados ao pescoço, anunciou um dia o concurso.

— Vamos fazer uma antologia da turma — disse ela. — Cada um escreve um texto. Pode ser poesia, prosa, o que quiserem. No fim, votamos os três melhores e publicamos num pequeno livro.

A Mariana levantou o telemóvel.

— Posso usar isto?

— Pode usar o que quiser — disse Dona Helena. — Desde que escreva.

A Mariana sorriu para mim do outro lado da sala. Não foi um sorriso mau. Foi pior. Foi um sorriso de quem sabe que vai ganhar e tem pena de mim.

Em casa, contei à Teleia.

Sentei-me à frente dela, fiz o minuto de silêncio, e escrevi: "Há um concurso na escola. Acho que vamos perder."

Ela não respondeu imediatamente. Esperou. Depois, muito devagar, fez sair uma única letra:

**A.**

Só isso. Não percebi se era encorajamento ou troça. Talvez fosse os dois.

---

Nos dias seguintes, tentei escrever qualquer coisa. Não saía. A Teleia mordia-me sempre que eu tentava ser bonito. Mordia-me sempre que eu tentava ser profundo. Mordia-me sempre que eu tentava parecer-me com a Mariana.

Uma noite, frustrado, escrevi-lhe diretamente na folha:

"Talvez devêssemos só escrever uma frase curta. Bonita. Uma daquelas que as pessoas partilham."

A Teleia não mordeu. Pior. Aceitou.


Escreveu, a meu mando, duas frases naquele estilo. Saíram-lhe sem protesto. Saíram-lhe limpas, polidas, prontas a publicar. Tipo: "a saudade é o tempo a pedir desculpa por ter passado depressa de mais". Ou: "somos todos guardadores de rebanhos que perdemos as ovelhas."

Esta última doeu-me especialmente, porque era plágio do Pessoa disfarçado de frase de Instagram. Olhei para as duas frases. Eram boas. Eram partilháveis. Iam ganhar o concurso, provavelmente.

E a Teleia, durante toda a noite, não fez um único A fora de sítio. Estava silenciosa. Estava obediente. Estava, pela primeira vez desde que a conhecia, vulgar.

Senti uma coisa estranha no peito. Era vergonha. Mas não era vergonha minha. Era vergonha por ela.

---

Rasguei as folhas.

Voltei a sentar-me à frente dela. Fiz o minuto de silêncio. Mais longo do que costume. Fiz dois minutos. Três.

Depois escrevi devagar, uma palavra de cada vez, sem pensar em concurso, sem pensar na Mariana, sem pensar nos quarenta mil seguidores:

"A minha máquina de escrever chama-se Teleia. Morde-me os dedos quando minto. Não é mágica. É só lenta. E há coisas que só se percebem devagar."

Foi tudo o que escrevi. Quatro linhas. Trinta e três palavras. Um parágrafo.

A Teleia, ao fim da última palavra, fez três A em duplicado seguidos. Não havia A na frase final. Mas ela fez na mesma.

---

No dia do concurso, levei a folha para a escola.

A Mariana leu primeiro. Tinha escolhido oito micro-poemas, todos magníficos, todos prontos para o telemóvel, todos com aquela qualidade fluida e brilhante que faz as pessoas dizer "uau" antes de continuar a fazer scroll. A turma aplaudiu. Dona Helena fez que sim com a cabeça.


Depois leram outros. Houve um rapaz que escreveu uma piada sobre futebol que toda a gente achou ótima. Houve uma rapariga que escreveu sobre o avô que tinha morrido, e que fez uma colega chorar.

Quando chegou a minha vez, levantei-me e li as quatro linhas.

Houve silêncio.

Não era o silêncio bom. Era o silêncio de quem não sabe se aquilo era para rir ou para ter pena. A Mariana sorriu, com aquela pena de antes. Alguns colegas olharam para os telemóveis. Dona Helena olhou para mim por cima dos óculos.

Sentei-me.

A votação foi por papelinhos. A Mariana ganhou, com vinte e dois votos. Outro colega ficou em segundo, com nove. O rapaz da piada de futebol ficou em terceiro, com sete.

Eu tive um voto. Foi o de Dona Helena.

No fim da aula, ela pediu-me para ficar.

— Posso ver a folha? — perguntou.

Estendi-lhe.

Ela leu. Releu. Tirou os óculos, limpou-os à camisola e voltou a pô-los.

Dona Helena não disse nada durante muito tempo. Depois disse:

— Esta frase, no fim. "Há coisas que só se percebem devagar." É tua?

— É da Teleia — respondi.

— Da máquina?

— Sim.

Ela devolveu-me a folha.

— Continua a escrever com ela. Mesmo que não ganhes nada.

E foi a única coisa que disse.

---

A Teleia morreu, anos depois. Não literalmente. As máquinas de escrever não morrem. Mas houve um dia em que a fita acabou e a fita que se vendia já não servia, e o mecanismo do A — a tecla preferida — cedeu finalmente, depois de anos a insistir em estar duas vezes onde só era preciso uma. Levei-a a um homem que arranjava máquinas antigas, em Lisboa, e ele disse-me que tinha conserto, mas que a peça era muito difícil de encontrar, e que talvez fosse melhor deixá-la descansar.

Deixei-a descansar.

Está na minha estante, ao lado dos livros. Os meus filhos perguntam-me às vezes o que é aquilo. Eu digo que é uma máquina de escrever. Eles perguntam se funciona. Eu digo que sim, mas que precisa de descanso. Eles riem-se, seguem para outra coisa qualquer.

A Mariana, hoje, é jornalista, escreve bem, e às vezes leio o que ela publica. Aprendeu a desacelerar. Talvez todos acabemos por aprender o que a Teleia me ensinou.

Mas, ainda hoje, quando vejo um adolescente a digitar com os dois polegares na velocidade da luz, penso na minha máquina e na ideia que ela salvou.

Não venceu o mundo. Não era suposto.

Salvou apenas uma ideia verdadeira, num dia de outubro, à mesa da cozinha de uma casa à beira-maar.

E para uma máquina que se chamava Teleia, isso era o suficiente.

Amo-te, Carla! Saudades!
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Capítulo 4 de 6 · Edital n.º 12/2026

Amo-te, Carla! Saudades!

Aos cinquenta e três anos, José Manuel comprou uma irmã.

A empresa chamava-se qualquer coisa em inglês. Ele depois nunca se conseguiu lembrar exatamente do nome, apenas que o domínio era qualquercoisa.aq. Eram muito simpáticos, e lamentavam que ele tivesse chegado até eles. Os nossos sentimentos. Estamos aqui para ajudar.

O catálogo dividia-se em separadores, com subopções e pequenos parágrafos explicativos. Quase invejou a generosidade profissional com que lamentavam sem saber porquê, sempre respeitando a dor do cliente. José Manuel passou uma tarde a ler. Estava à mesa da cozinha, com um café ao lado, com a mesma concentração com que outros homens da idade dele leem páginas de carros usados.

Escolheu irmã, porque era a relação que faltava na família dele e que, portanto, ninguém poderia desmentir. Escolheu mais velha. Escolheu acidente em estrangeiro, porque a empresa avisava, num pequeno aviso lateral, que o luto por morte súbita longe de casa era estatisticamente o mais bem recebido socialmente.

Para o estado da relação, hesitou entre quatro opções. Conflituosa-sem-resolução era a mais cara, e vinha com uma legenda discreta. Recomendada para utilizadores que valorizem a complexidade emocional.

José Manuel escolheu essa. Achou que lhe ficava bem.

Depois veio a parte do pacote.

Ao princípio tinha pensado encomendar uma irmã já morta. Ficava mais barato, ficava mais simples, e ele estava com pressa de ter sentimentos. Mas a empresa, com aquela cortesia das empresas que sabem o que é melhor para nós, sugeriu-lhe que considerasse a opção integrada. Recebia primeiro a irmã viva, durante um período à escolha, com cartas, fotografias, eventualmente áudios e contacto regular. Só depois é que vinha a notícia da morte. O luto resultante é estatisticamente mais profundo, por motivos óbvios.

Havia quatro durações disponíveis. Um mês, dois meses, quatro meses, sete meses. A empresa recomendava sete, para maximizar a integração emocional. José Manuel escolheu quatro, porque sete pareciam-lhe muitos e ele queria avançar com a vida. Mais tarde havia de se arrepender.

Para os extras, hesitou outra vez. O pacote básico tinha cartas e fotografias. O intermédio acrescentava áudios mensais, mensagens de aniversário, e até três atualizações de vida significativas. Novo namorado. Mudança de cidade. Pequenas zangas. Reconciliações. O completo incluía chamadas em direto e a possibilidade de visitas anuais por vídeo, com cenários credíveis ao fundo. José Manuel escolheu o intermédio. O completo ficava caro e ele achou exagero. Mais tarde havia de se arrepender.

Recusou também o serviço opcional de cemitério, oferecido em letra mais pequena. A empresa propunha-se adotar uma campa anónima em qualquer cemitério à escolha do cliente, com manutenção mensal, flores de época e uma placa discreta. Ficava caro e ele achou exagero. Mais tarde havia de se arrepender.

O nome pôs ele. Pôs Carla António, sem pensar muito, talvez por causa de uma colega que tinha tido nos anos noventa e de quem se lembrava com aquela ternura desfocada que se tem por pessoas com quem nunca se fez nada. A empresa registou. Sugeriu-lhe ainda uma profissão, e ele aceitou a primeira que lhe ofereceram. Professora primária em Faro. Soou-lhe bem.

* * *

A Carla escreveu-lhe pela primeira vez ao fim de quatro dias.

A carta vinha em papel pautado, com a tal letra inclinada, e tratava-o por Zé-zinho. Falava-lhe da escola, de uma colega impossível chamada Lurdes, e perguntava-lhe pelos pais com aquele desinteresse afetuoso das irmãs que telefonam pouco. José Manuel leu a carta seis vezes. À sexta sabia-a de cor.

Respondeu, à mão, num papel comprado de propósito numa papelaria de Campo de Ourique. A empresa tinha avisado que as respostas não eram lidas pela Carla, mas que podiam ser scaneadas e inseridas no sistema, para enriquecer o realismo das comunicações futuras. Ele scaneou. Pagou um euro e meio.

Na segunda semana veio um áudio. A voz da Carla a contar um episódio parvo que tinha acontecido na sala dos professores, com risadas curtas no meio. Tinha a respiração levemente arquejada de quem fala enquanto faz outra coisa. Ouviu-o no carro, parado no parque de estacionamento do ministério, antes de subir para o gabinete. Ficou sentado mais cinco minutos do que devia.

Na quarta semana, a Carla mandou uma fotografia. Estava à porta de uma esplanada com um homem de barba que ele não conhecia. Na semana seguinte, contou-lhe por carta que tinha um namorado novo, Pedro, e que talvez fosse coisa séria. Não digas nada à mãe, ainda não está a altura. José Manuel não tinha tencionado dizer à mãe. Mas o pedido, em si, fê-lo sentir-se cúmplice de uma coisa, e a cumplicidade era um sentimento que não tinha desde miúdo.

Na sétima semana, a Carla mandou os parabéns em cassete. Veio pelo correio, num envelope com selo internacional, dos rápidos, porque ele tinha pago o suplemento de suporte físico sem saber bem porquê. Cantou mal, com risadas ao fundo de outras pessoas. A gravação tinha o chiado certo. Ele comprou um leitor de propósito, passou-a depois para o telemóvel para não gastar a fita, e ouviu-a cinco vezes seguidas, na sala às escuras. Sentiu-a.

Na décima, chegou um postal de Sevilha, datado de uma terça-feira de julho. Está calor de mais. Compro-te uma coisa antes de voltar. A letra estava ligeiramente mais apressada que de costume.

Na décima primeira, a empresa enviou-lhe um email com o assunto Comunicação Importante. José Manuel sentou-se à mesa da cozinha para ler. Lamentavam profundamente informá-lo do falecimento da sua irmã, Carla António, vítima de acidente rodoviário ocorrido na A-92, sentido Sevilha-Granada. As autoridades locais tinham sido contactadas. O processo de luto podia agora iniciar-se formalmente. Estavam à disposição para qualquer apoio adicional.

Ele leu o email três vezes. Depois foi à gaveta buscar o postal. Compro-te uma coisa antes de voltar. A Carla não chegou a comprar a coisa. Foi o detalhe que primeiro o fez chorar, e ele chorou na cozinha, em pé, com o postal na mão e o café a arrefecer.

A irmã inventada conhecia-o melhor do que uma irmã real teria conhecido. Tinha sido feita à medida do que ele precisava de ter perdido.

* * *

A empresa tinha sugerido, ao princípio, que ele não falasse muito sobre a Carla com terceiros durante a fase de integração. Ele cumpriu durante quatro meses. Ao quinto, não aguentou mais.

Disse à colega de gabinete, a Anabela, que tinha sido um aniversário difícil. Ela perguntou porquê. Ele disse, com a naturalidade que já tinha treinado em casa, que era o aniversário da morte da irmã. Não sabia que tinhas uma irmã. É que ela morreu cedo, em Espanha, e a gente em casa nunca falou muito disso. A Anabela ficou calada um momento, com aquele respeito instantâneo que as pessoas têm pelos lutos que não conheciam, e na sexta-feira seguinte trouxe-lhe um bolo de iogurte com uma vela.

A vela foi o que mais lhe doeu. Não tinha pedido vela.

A partir daí a coisa propagou-se como se propagam estas coisas em ministérios pequenos. O chefe de divisão, no Natal, chamou-o de lado e disse-lhe que se ele algum dia quisesse falar, estava ali. Agora que estás sozinho com isso. A vizinha do quinto, que sempre o tinha cumprimentado com aquela secura das vizinhas que não decidiram ainda se gostam, passou a perguntar-lhe pela saúde com uma ternura nova, demorada. Numa festa de anos, alguém comentou o José perdeu cedo a irmã, sabes, e duas mulheres que ele não conhecia olharam para ele com uma compaixão profissional que não sabiam estar a oferecer.

Em fevereiro, o chefe chamou-o outra vez. Sentou-o na cadeira à frente da secretária com aquela solenidade dos chefes que estão a oferecer coisas. Disse-lhe que tinha pensado nele para a coordenação do gabinete de planeamento. Era um cargo intermédio, com pequeno aumento. Tu tens um peso humano que se nota. Isso conta. José Manuel agradeceu. Aceitou. Ao sair, ficou a pensar no peso humano, que era uma coisa que nunca soubera ter, e que aparentemente se tinha apanhado em Sevilha.

Ele percebeu, com uma calma que o assustou, que tinha ganhado uma biografia.

Sempre tinha sabido que lhe faltava uma. Tinha cinquenta e três anos, era filho único, os pais ainda eram vivos e bem, nunca casara, nunca enterrara ninguém que lhe tivesse feito falta de modo audível. Em jantares, quando alguém perguntava e tu, perdeste alguém este ano?, ele tinha sempre de responder que não, e a conversa virava-se para o lado. Era assim há trinta anos.

Agora não.

Agora tinha Sevilha. Tinha uma cassete que ouvia uma vez por mês. Tinha um postal por cima da secretária. Tinha o direito a fazer aquela pausa pequena e cansada que os enlutados de longa data fazem quando o assunto deles aparece sem aviso. As pessoas reconheciam a pausa. Davam-lhe o tempo dela.

Não estava a mentir, propriamente. A dor era real. Aparecia-lhe à noite, sem pedir, e tinha a forma exata da Carla. Magra, escura, irritada com qualquer coisa que ele nunca soube. Uma vez sonhou com ela. Acordou com a almofada molhada. Ficou sentado na beira da cama, a pensar em Sevilha, e percebeu que não conseguia separar duas coisas. Que a Carla nunca tinha existido. E que ele lhe tinha saudades.

* * *

A empresa fechou num domingo de fevereiro do ano seguinte. As fotografias, guardadas na nuvem da empresa, deram erro. As cartas digitalizadas eram ficheiros que já não abriam. A aplicação tinha desaparecido do telemóvel. Restou-lhe o postal, em cima da secretária, e a cassete, que continuou a tocar porque era uma máquina antiga e ninguém a podia desligar à distância.

Procurou o nome da empresa na internet. Encontrou um artigo curto, num jornal económico, que falava em insolvência e em modelo de negócio insustentável a médio prazo. Não falava em clientes. Não falava em mortos. Falava em ativos.

Em maio, num jantar, alguém perguntou e tu, perdeste alguém este ano?

José Manuel não chegou a ouvir. Tinha o telemóvel ao colo, por baixo da mesa, e estava a abrir um email que tinha entrado nessa tarde. O remetente era Consuello Memorial Asociados. O assunto, em português aproximado, dizia Aviso importante sobre o seu familiar Carla António.

Lamentavam o longo silêncio. Tinham adquirido recentemente os ativos da empresa anterior, num processo internacional complexo, e estavam agora em condições de retomar o serviço. A ficha emocional da sua irmã tinha sido preservada na íntegra. Estava-lhe disponível, mediante uma pequena taxa de migração, a opção de continuar a relação com a Carla nos novos servidores, com tecnologia melhorada e planos mais acessíveis. Em alternativa, podia substituir o registo por outro familiar à escolha. Sugeriam, dada a sua faixa etária, uma mãe.

Tinha um botão verde. Migrar Carla. Tinha um botão cinzento. Explorar outras opções.

A empresa estava sediada nas Honduras Britânicas, que ele sabia ter deixado de existir como entidade política em mil novecentos e oitenta e um. Reparou nisto e não reparou ao mesmo tempo, da maneira como se reparam estas coisas quando estamos com pressa.

À volta da mesa continuavam a falar. Alguém riu. Alguém serviu vinho. A pergunta sobre quem perdeu alguém este ano tinha-se resolvido sozinha entre os outros, com histórias de tios e de cães.

José Manuel olhou para os dois botões.

Pensou em clicar no verde. Pensou no preço. Pensou no postal, em cima da secretária do gabinete novo dele, com a vista para o pátio interior do ministério. Pensou na cassete, que ainda tocava.

Depois, sem decidir nada, começou a pensar noutra coisa. Tinha lido na semana anterior, num suplemento de domingo, que andavam a aparecer empresas a oferecer santos. Não santos canónicos. Santos pessoais, com biografia construída, com três milagres garantidos por trimestre, com festa anual em data à escolha do cliente. Pareceu-lhe, ali à mesa, com o telemóvel no colo e o vinho a meio do copo, uma ideia mais credível que a da irmã. Os santos, ao contrário das irmãs, podiam ser oficialmente venerados em público sem que ninguém precisasse de saber de onde vinham.

Guardou o telemóvel sem clicar em nada. Acabou o jantar. Em casa, nessa noite, abriu o portátil e procurou santo personalizado preço Portugal.

Apareceram quatro empresas. Três tinham sede em países duvidosos. A quarta parecia mais séria.

Tinha cinquenta e três anos. Tinha finalmente perdido alguém. Não havia ninguém a quem dizê-lo, mas isso, percebia agora, tinha solução comercial.

Trinta Créditos
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Capítulo 5 de 6 · Edital n.º 13/2026

Trinta Créditos

Foi junto à pastelaria Nova Europa, à porta da casa de apostas, que o Agente Carlos Antunes intercetou o primeiro pensamento sujeito a direitos. Não era um pensamento extraordinário, mas era o suficiente para o aparelho apitar.

Também não foi sorte. O Euromilhões ia em 127 milhões. Era lógico alguém sonhar com o que fazer com o prémio. Tem de ser fácil sonhar com o Euromilhões, senão ninguém jogava. A oportunidade vinha depois, porque pensar no dinheiro era legítimo, desde que acautelada a eventual existência de titularidade e registo sobre o sonho. Em semana de jackpot, à porta da casa de apostas, os pensamentos sujeitos a taxas eram tiro certo.

Os sonhos de homens ricos tinham sido vendidos em lotes a meia dúzia de homens muito ricos. O Antunes nunca sabia qual era o dono de cada sonho, mas tinha um jogo privado: adivinhar o titular antes de olhar.

O homem saiu com o boletim na mão, parou no passeio e olhou para os números. Foi aí que o aparelho apitou.

O Antunes apostou no Neymar.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Projeção nupcial

Registo associado: CASAMENTO BELLA & EDWARD

Referência: IN-04.771-B

Titular dos direitos:

Logan Paul Ventures LLC

Utilização detetada: 00m41s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 28,5 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

Era propriedade do Logan Paul. O Antunes nem sabia quem era o Logan Paul. Falhou mais uma vez.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Está a pensar, não é?

— Eu?

— Sim.

— Acho que … suponho que sim.

O Antunes aproximou o aparelho do peito do homem. Não precisava, mas no curso tinham-lhe ensinado assim.

— Estava a pensar no quê?

O homem encolheu os ombros, e sorriu com o boletim na mão.

— Se ganhar, caso-me. Peço a Sandra e faço-lhe um casamento a sério. No meio de uma floresta, tudo coberto de flores brancas, uma luz suave. É o sonho dela.

— Pois.

O Antunes mostrou-lhe o ecrã.

O homem leu duas vezes, como se à segunda pudesse fazer sentido.

— Quem é a Bella?

— Não sei.

— O casamento é dela?

— É do Logan Paul.

— Quem é o Logan Paul?

— O titular dos direitos sobre esse sonho.

O homem olhou outra vez para o ecrã.

— Mas era o meu casamento. Foi a Sandra que o imaginou, há meses.

— Com flores brancas na floresta?

— Sim.

— Luz suave?

— Sim.

— Então não era dela. Já estava imaginado e registado.

— Isto não faz sentido nenhum.

— Artigo 14.º.

— Artigo 14.º de quê?

— Dos direitos. Vá, você sabe!

O homem pagou vinte e oito créditos e meio. Trinta era se pagasse depois de sexta. Guardou o boletim na carteira, com o recibo agarrado.

— E agora? Em que é que posso pensar?

— Que ganha.

— Só?

— Que ganha pode pensar à vontade.

O homem foi-se embora a olhar para o boletim. O aparelho apitou outra vez.

O Antunes virou-se.

O homem fechou os olhos.

— Eu sei. Eu sei.

*

O Antunes não era má pessoa. Isto é importante porque ele também não era particularmente uma boa pessoa. Era um homem com as capacidades certas, e ele próprio reconhecia os seus limites. Sabia que provavelmente todos os outros eram mais capazes do que ele.

Mas os outros não tinham ido ao concurso da Câmara. Ele foi. E, portanto, a responsabilidade era dele, não dos outros. Podiam ser mais capazes à vontade, mas a legitimidade era dele. Às vezes até tinha pena deles.

Era amigo do presidente da Câmara. Amigo no sentido em que o presidente lhe dizia "então, Antunes" quando se cruzavam no corredor. Também no sentido em que o Antunes o defendia à noite nas redes sociais, contra desconhecidos, com a sua característica pontuação irregular. Tinha a bandeira do partido no perfil e tudo o que o presidente fazia, o Antunes assumia como seu: as rotundas, o pavilhão multiusos e, obviamente a fiscalização cognitiva. Quando alguém se queixava das taxas, o Antunes sentia que se queixavam dele. E, ao menos nisso, tinha razão.

Tinha sempre o manual no carro. Seiscentas e quarenta e duas páginas, capa azul e de letra pequena. Tinham-lho entregue no primeiro dia do Curso Intensivo Nacional de Fiscalização Cognitiva Aplicada, junto com uma caneta, duas águas e uma sandes de queijo. Não o leu, mas na segunda noite fotografou as páginas todas e pediu à inteligência artificial do telemóvel que o resumisse. A inteligência artificial devolveu-lhe onze pontos. O Antunes guardou os três que lhe pareceram sérios: o artigo 14.º, o artigo 22.º e o artigo 31.º, o suficiente, até ver.

Quando alguém lhe pedia explicações ou argumentava que a taxa não era devida, o Antunes não discutia. Citava um dos três artigos. As pessoas aceitavam melhor um número do que um argumento. Ele sabia-o sem nunca ter pensado nisso, porque era assim que o Antunes sabia as coisas importantes.

É claro que o Antunes tinha a noção de que, por vezes, se excedia e ultrapassava largamente o que se esperava dele. A Câmara pedia doze autos por semana. Ele fazia vinte e tal. Mas para ele era brio. Conhecia os sítios onde as pessoas costumam pensar. Paragens de autocarro, filas dos correios e casas de apostas em semana de jackpot. Andava à caça, mas à caça no cumprimento do dever, que é a forma mais descansada de andar à caça.

O sistema de Fiscalização Cognitiva não tinha escandalizado ninguém. Quando o Antunes foi tomar o seu café junto à farmácia, na pausa das dez e meia, reparou na mulher que à porta se lamentava por não ter os créditos necessários para o antidepressivo do marido. O farmacêutico encolhia os ombros e apresentava o produto substituto patrocinado pelo estado. A máquina apitou quando passou junto à mulher. Ele desprezou o aviso e não parou. Já estava habituado. Toda a gente estava.

Quando a fiscalização dos pensamentos passou para as câmaras municipais, houve quem dissesse que não ia resultar. Tinham dito o mesmo dos parquímetros e do estacionamento. Primeiro foram os medicamentos, depois as músicas que não se podiam cantarolar, depois os livros. Agora eram os pensamentos. A lógica era sempre a mesma: se alguém teve a ideia primeiro, tu pagas para a usar. Um dia entendeu-se que a maior parte das pessoas apenas copiava as ideias dos outros e o resto foi legislação.

*

Às dez, entrou no Jardim Municipal.

As crianças viram-no antes de ele as ver. Uma largou a bola e outras esconderam-se atrás do escorrega. Uma menina de tranças meteu-se para trás de um banco e ficou com os pés de fora.

O parque ficou subitamente vazio, exceto pelos adultos, que continuaram sentados como se nada fosse.

Não era preciso fugirem. Até aos doze anos o pensamento era livre, por decreto, e também porque ninguém tinha ainda conseguido medir ao certo o que pensa uma criança. Mas as crianças fugiam na mesma porque era o que se fazia quando aparecia um fiscal. Principalmente o Antunes.

Carlos suspirou.

— Eu estou a ver-vos.

Silêncio.

— Até aos doze podem pensar o que quiserem. Está no decreto.

Uma voz atrás do escorrega:

— Mesmo coisas más?

Carlos pensou. O aparelho não apitou; pensar sobre legislação em serviço estava isento.

— Sim! Podem pensar em coisas más, mas não devem.

— E coisas parvas?

— Para o serviço é igual.

— E roubar?

Uma mãe virou-se no banco.

— Gustavo.

— Estou só a perguntar.

— Pensar pode — disse Carlos. — Fazer já é com a polícia.

As crianças pareceram satisfeitas com a separação de competências e foram saindo dos esconderijos.

A menina das tranças aproximou-se e leu alto o nome bordado na farda: — Agente Carlos Antunes!

— O senhor prende os pensamentos?

— Não.

— Então faz o quê?

— Eu só faço a cobrança quando é devida.

A menina recuou. Aquilo pareceu-lhe pior.

Quando se afastava, viu-as reunidas ao pé do escorrega. Tinham inventado um jogo: uma fazia de fiscal, com uma folha seca presa à camisola como distintivo.

— Apanhei-te! Estavas a pensar em gelados!

— Pensar em gelados é grátis!

— Mas estavas a pensar em gelados do ano passado!

A criança acusada ficou quieta.

— Não estava.

— Estavas com saudades do verão!

As outras fizeram um som coletivo. Saudades do verão têm taxa.

A criança fugiu. O fiscal correu atrás dela com a folha presa ao peito.

Carlos seguiu caminho. Achou bem. Sempre gostou de ver as crianças a brincar a coisas úteis.

*

Às onze e vinte e quatro, apanhou o homem do filme.

Estava num banco, sozinho, com um saco de viagem aos pés e um jornal dobrado em cima do joelho. Óculos de massa, um casaco castanho demasiado quente para o tempo.

O aparelho vibrou. Depois apitou.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Interpretação individualista de narrativa audiovisual — Classe B

Registo associado: OBRA AUDIOVISUAL REGISTADA

Referência: IA-08.314-B

Titular dos direitos:

Narrativa Universal Licensing PLC

Utilização detetada: 04m11s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 32 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

— Bom dia. Estava a pensar num filme?

O homem fechou o jornal.

— Estava.

— Qual?

— Isso é relevante?

O Antunes olhou para o aparelho.

— Para mim, não.

— Então não digo.

— Tudo bem.

O Antunes começou a escrever e o homem sorriu ligeiramente.

— Se não interessa qual é o filme, não vejo porque interessa o que pensei.

— Para mim apenas a categoria interessa.

— Interpretação individualista. Classe B?

Voltou a olhar para o agente.

— Quer dizer que pensei no filme sozinho?

— O facto de se admitir a existência de terceiros potencialmente concordantes não afasta os direitos do titular quando, no momento da ocorrência, o indivíduo se encontra sozinho.

Era uma das frases do curso. Saiu-lhe inteira, sem esforço. Das duas semanas de formação, a cabeça do Antunes tinha decidido guardar aquela. E usava-a sempre que possível.

O homem olhou para ele durante alguns segundos.

— Trinta créditos?

— Trinta e dois.

— Subiu?

— Em julho.

O Antunes olhou para o histórico.

— O senhor já tem algumas ocorrências.

O homem pagou sem discutir.

— Tenho tido tempo para pensar bastante.

— Isso nota-se. — Guardou o bloco. — Um conselho. Se for pensar em filmes, pense acompanhado com uma ou duas pessoas. Sozinho entra noutra categoria e é o que custa dinheiro.

O homem sorriu.

— Vou tentar não pensar sozinho.

— Faz bem.

O homem guardou o recibo dentro do jornal.

— Bom trabalho, agente Antunes.

— Conhece-me?

O homem apontou para a farda.

— Está aí escrito.

O Antunes continuou a ronda. Não tinha andado cinquenta metros quando o rádio apitou.

— Atenção a todas as unidades municipais da zona central. Possível presença de indivíduo sinalizado pela Polícia Internacional de Proteção Cognitiva. Indivíduo masculino, cinquenta e oito anos, cabelo grisalho, óculos, casaco castanho. Identificado como Henrique Valbom. Suspeito de tráfico transfronteiriço de estruturas filosóficas protegidas, reprodução ilícita e distribuição de conteúdos conceptuais sem licença.

O Antunes olhou para trás. O banco já estava vazio.

— Unidades que tenham tido contacto devem informar imediatamente.

Carregou no botão.

— Antunes, Unidade Municipal. Estive com ele agora.

— Como?

— Apliquei a taxa por interpretação de filme registado em OBRA AUDIOVISUAL REGISTADA .

Silêncio.

— E deixou-o seguir?

O Antunes olhou para o recibo.

— Pagou.

— Agente, esse homem é procurado em sete países. Trafica pensamentos filosóficos. Há mais de quinze anos que distribui estruturas protegidas. Há redes em Madrid, Bruxelas, São Paulo. Encontraram grupos inteiros a pensar Nozick sem licença em caves de prédios.

O Carlos não sabia quem era Nozick. Não achou necessário perguntar.

— Devia tê-lo retido.

— Não tenho competência.

— É um criminoso internacional.

— Mesmo assim.

Do outro lado, alguém respirou de forma irritada.

— Agente Antunes, quando encontrar um indivíduo procurado internacionalmente, deve impedir a saída.

— Isso é um artigo? Qual?

Silêncio.

— Não é um artigo municipal.

Carlos relaxou. Não era nada a ver com ele. Desligou.

À tarde soube que o apanharam na estação. Trazia no saco três cadernos, dois telemóveis desligados e vinte e sete folhetos de pensamentos filosóficos prontos a distribuir. Um deles estava identificado apenas como:

MERCADO RESOLVE — versão integral, sem rastreio

O assunto abriu as notícias das oito.

Carlos não viu, porque mantinha a televisão desligada à hora de jantar.

*

Seria bonito contar que o Antunes ficou a pensar no homem do casaco castanho. Que nessa noite, deitado, olhou para o teto e se perguntou o que seria isso de andar pelo mundo a distribuir pensamentos, quanto valeria um pensamento e a quem se pagava.

Mas especular sobre criminosos internacionais pertencia à categoria Reconstituição Dramática Não Autorizada, classe C, titular registado, e o Antunes não gastava créditos com pessoas que já iam presas. Teve uma noite tranquila, sem percalços.

No dia seguinte, às nove e dezassete, o aparelho apitou à porta da casa de apostas.

Era o homem do boletim. Boletim novo, olhos no papel.

O jackpot não tinha saído a ninguém e ia agora em cento e trinta e nove milhões.

Neymar, apostou o Antunes.

FISCALIZAÇÃO COGNITIVA — OCORRÊNCIA DETETADA

Categoria: Fantasia náutica de enriquecimento — Classe II

Registo associado: 4-8-15-16-23-42

Referência: FN-02.886-II

Titular dos direitos:

Neymar Júnior Enterprises

Utilização detetada: 00m28s

Licença válida: NÃO

Taxa aplicável: 28,5 créditos

Situação: PAGAMENTO DEVIDO

Era do Neymar. O Antunes acertou pela primeira vez sem celebrar.

— Bom dia.

— Bom dia.

— Outra vez?

— Ontem não saiu a ninguém. E hoje tive cuidado. Pensei só num barco.

O Antunes mostrou-lhe o ecrã.

— Este é do Neymar.

O homem leu.

— E estes números?

— É o Registo associado.

— Associado a quê?

O Antunes olhou para o ecrã.

— Fantasia náutica de enriquecimento. Classe II.

— Mas eu só pensei num barco. E porque é que o titular é o Neymar?

— É o que consta.

O homem ficou a olhar para ele.

O Antunes tirou o bloco.

— Artigo 22.º.

— Ontem foi o 14.º.

— Hoje é o 22.º.

— Porquê?

— Ocorrência subsequente.

— E pago mais?

— Não. Vinte e oito e meio.

— Então o que é que muda?

— O artigo.

O homem desistiu e calou-se.

— Trinta se pagar depois de sexta — lembrou Antunes.

Passou o ticket, guardou o bloco e seguiu a ronda.

O homem tinha aprendido que fugir à ideia de casamento não lhe tinha servido de nada.

O Antunes não aprendeu nada porque não era para isso que lhe pagavam.

Amor, A Prova Oral, segunda chamada
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Capítulo 6 de 6 · Edital n.º 14/2026

Amor, A Prova Oral, segunda chamada

Era o dia 13 de abril e nas salas ao lado as aulas decorriam normalmente. A Dona Elvira chegou à sala 4 às oito e meia e, como sempre, abriu a janela e sentou-se.

Era também o dia da prova oral de Amor. A segunda chamada para alunos do terceiro ano.

A sala cheirava a leite escolar do dia anterior e a banana esmagada, deixada no fundo de uma mochila.

No quadro, meio apagado da aula anterior, ainda se lia o sumário:

Lição n.º 42. Pessoa, Neruda e Bocage: três formas de escrever o amor. O caso Camões.

Era da turma do 9ºano. A Dona Elvira não o apagou. Pôs a pasta em cima da secretária e tirou a grelha. Pousou o telemóvel com o ecrã virado para baixo junto à pasta.

A grelha vinha num documento traduzido. Percebia-se logo, porque no canto superior ainda se lia, em cinzento: Emotional Literacy Assessment: Adapted Version. A Dona Elvira nunca tinha questionado porque é que uma das perguntas excluía a comida das respostas.

A Dona Elvira bebeu um gole de chá frio. Reparou que a planta da janela tinha duas folhas vivas e oito mortas. Não sabia se estava a morrer ou a recuperar.

O auxiliar bateu à porta.

— Dona Elvira, estão aqui os dois.

— Mande-os entrar.

— Os dois?

— Não. Um. Depois o outro.

Entrou primeiro o Dinis.

Tinha oito anos e os atacadores desapertados. Não por desleixo, mas porque ainda não tinha aprendido que se apertam antes de sair de casa.

Sentou-se. Pôs as mãos nos joelhos e os olhos na professora.

— Dinis, isto é a segunda chamada. Já sabes como funciona.

— Já.

— Vou fazer-te quatro perguntas.

— Está bem.

A Dona Elvira olhou para a grelha.

— Define amor sem usar exemplos alimentares.

O Dinis pensou.

— O amor é quando uma pessoa empresta a borracha a outra pessoa.

— Já tinhas dito isso no escrito.

— Mas é.

— Então, define-o sem usar material escolar.

O Dinis ficou parado. Abriu a boca. Olhou para as mãos nos joelhos. Fechou a boca.

— O amor é quando há lugares marcados.

— Onde?

— No autocarro. Quando uma pessoa guarda lugar para outra, mesmo se o autocarro está cheio. Isso é amor.

A Dona Elvira escreveu na grelha. Não pôs certo. Escreveu a resposta. Pôs reticências. Continuou.

— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.

O Dinis pensou.

— Estar presente é fácil.

— Como assim?

— É só aparecer. Os gatos aparecem sempre.

— E ser responsável?

— Os gatos não são responsáveis por nada.

A Dona Elvira escreveu na grelha.

— Mais alguma coisa, Dinis?

— Eu acho que também é quando uma pessoa não se pode esquecer da outra.

— Esquecer?

— Tipo se uma pessoa se esquece do almoço da outra, isso não é ser responsável.

— Está bem.

— Eu uma vez fiquei sem almoço.

A Dona Elvira anotou.

Por baixo, escreveu uma palavra que rasurou logo a seguir.

— Dá um exemplo de perda afetiva.

— O quê?

— Alguma vez perdeste uma pessoa de quem gostavas?

— Como assim, perder?

— Alguém que se foi embora. Não a voltaste a ver.

— Foi para onde?

— Para qualquer lado.

— A minha avó foi para o Brasil.

— Está bem. E o que sentiste?

— Senti pena de ter ficado sem o cobertor.

— Que cobertor?

— Ela tinha um cobertor que cheirava bem. Quando foi para o Brasil levou o cobertor.

— E a tua avó?

— Ficou lá.

A Dona Elvira escreveu. Não comentou.

— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.

— Eu não sei o que é cuidado adequado.

— São coisas que uma pessoa faz por outra para mostrar que se preocupa.

— A minha mãe lava-me as cuecas.

— Isso é uma resposta válida.

— A sério?

— Sim.

— Pensei que ia chumbar outra vez.

— Ainda não acabaste, Dinis.

— Pensei que tinha acabado.

— Falta saíres.

O Dinis levantou-se com os atacadores desapertados. À porta, virou-se.

— Posso ir lavar as mãos?

— Podes.

A Dona Elvira ficou sozinha. Olhou para a grelha. Tinha riscos azuis em todos os critérios. Ainda não tinha feito a soma. Somar era só no fim.

Por cima do lavatório ainda lá estava o recorte do jornal do ano anterior.

ESTRATÉGIA EUROPEIA PARA AS COMPETÊNCIAS AFECTIVAS ESSENCIAIS

Por baixo do título, numa foto, o ministro sorria. Ao lado, em letra mais miúda, estava a citação que tinha dado o nome a três ações de formação:

"As crianças devem ser capazes de distinguir afeto, apego, compromisso e responsabilidade partilhada em contextos relacionais."

*

O auxiliar bateu à porta e entrou.

— A Mafalda?

— A Mafalda.

A Mafalda entrou de cabeça baixa. Tinha o cabelo apanhado e um laço azul que não combinava com a camisola. Trazia a lancheira na mão.

Sentou-se. Colocou a lancheira no chão, ao lado dos pés.

Os pés não chegavam à barra da cadeira.

— Mafalda. Isto é a segunda chamada.

— Sim, professora.

— Define amor sem usar exemplos alimentares.

— O amor é quando uma pessoa gosta da casa.

— Da casa? Qual casa?

— Da casa onde devia morar.

A Dona Elvira escreveu a resposta. Pôs reticências no fim, embora não fosse preciso.

— Explica a diferença entre estar presente e ser responsável por alguém.

A Mafalda pensou.

— A minha mãe faz as duas coisas.

— E o teu pai?

— O pai aparece.

— Quando?

— Aos fins-de-semana.

— E é responsável?

— Diz que vai ser, quando puder.

— Porquê?

— Não sei.

A Mafalda baloiçou os pés. A Dona Elvira pôs a caneta em cima da grelha. Durante uns segundos, não escreveu nada. Depois levantou a caneta outra vez.

— Dá um exemplo de perda afetiva.

— Quando o meu pai vai para o trabalho.

— Mas ele vai e volta.

— Volta. Mas é como se voltasse uma pessoa parecida com ele.

— Mafalda, isso não é perda afetiva.

— Está bem.

— Tenta outra coisa.

— Não me lembro de mais ninguém.

A Dona Elvira olhou para a Mafalda e a Mafalda olhou para os pés.

— Última pergunta. Identifica sinais de cuidado adequado.

— A minha avó tira as passas do arroz antes de eu chegar.

— Mais?

— A minha mãe sabe sempre onde está a caixa dos cereais.

— Mais?

— O meu pai não sabe.

— Isso não é um sinal de cuidado adequado, Mafalda.

— Pois.

— É o contrário.

— Eu sei.

— Então porque é que disseste?

A Mafalda pensou.

— Porque eu só sabia duas.

A Dona Elvira escreveu.

— Está bem. Podes ir.

A Mafalda levantou-se. Pegou na lancheira do chão. Foi até à porta. Hesitou.

— Professora.

— Sim?

— Isto conta para passar?

— Conta.

— Eu passo?

A Dona Elvira olhou para a grelha. Bebeu o resto do chá frio. Pegou na caneta vermelha.

— Passas.

— Os dois?

— Os dois.

— Está bem.

A Mafalda saiu. A porta fez o ruído que as portas das salas fazem, mas não se fechou bem e ficou um centímetro aberta.

A Dona Elvira não se levantou para a fechar.

Olhou para a grelha. Os critérios estavam todos com riscos azuis. Por baixo do último, “Identifica sinais de cuidado adequado”, tinha escrito “passas” e nada mais. Não tinha somado.

Pegou na caneta verde. Escreveu APROVADO nas duas folhas.

O auxiliar bateu à porta.

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